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27 de abr de 2010

CINISMOS

        MARCELO MARANO DESLIGOU O computador, reuniu as folhas impressas e foi sentar-se na confortável poltrona de seu escritório, em casa. Ali era o seu refúgio, uma espécie de santuário; misto de biblioteca e sala de trabalho. Acendeu o abajur de leitura e fez uma última análise no documento que havia elaborado, depois o colocou na pequena mesa de centro. Da poltrona avistava o jardim de inverno cuidadosamente planejado por um urbanista e arquiteto carioca. Aquele espaço era o complemento do seu refúgio, com mais de cinquenta metros quadrados, uma fonte e um pequeno lago, ambos artificiais.
A esposa, Ana Maria Marano dormia no quarto do casal no segundo piso, sedada pelos remédios que tomara para uma enxaqueca. Ultimamente vivia à base de “tarja preta.” “E como envelhecera”,
reparava o marido.
        Marcelo completaria cinquenta anos dentro de cinco dias e era sobre isso que pensava naquele momento. A crise dos quarenta não fora propriamente uma crise, todavia agora, aos cinquenta, sentia-se deprimido e num profundo sentimento de inutilidade, chegando mesmo à autopiedade. A esse estado de espírito pesava ainda uma convocação para depor na Comissão Parlamentar de Inquérito que investigava irregularidades da aplicação de verbas públicas por órgãos governamentais em empreiteiras, entre elas, a sua empresa.
       A imprensa cobrava explicações que ele, em indignação, achava que não as devia a ninguém; os deputados aproveitavam-na para a autopromoção dando entrevistas com ares de seriedade, de promotores da moralidade pública; os advogados aproveitavam também e se promoviam ganhando rios de dinheiro; e ele, como outros colegas empreiteiros, eram tratados como vilões de um jogo que sempre houve (e continua a existir), desde o império. Um jogo onde não havia um santo que fosse; regra que valia para a imprensa, o parlamento, os ministérios ou as empresas. No meio de tudo os lobistas e outros elementos atravessadores que viviam das sobras, das migalhas que eram medidas em porcentagens de um dígito e até menores.
       Contudo, sabia que nesse jogo, ocasionalmente havia-se que "fazer de conta" que se moralizava, que “não havia e nem haveria” tolerância com práticas de natureza lesiva ao estado. E nesse faz de conta ele se viu jogado no "bolo da vez". Estava entre feras famintas, de todos os tipos de predadores de ocasião.
        Terça-feira, dia do seu aniversário, dia de ser imolado na CPI, sob o cinismo de vossas senhorias, dos jornalistas, dos advogados e da opinião pública (a sempre citada e abstrata opinião pública, elemento essencial na retórica do cinismo). Seu advogado tentara adiar o depoimento, inutilmente. Pior, poderia sair preso da sessão, a menos que conseguisse uma liminar preventiva que ainda estava sendo apreciada pelas excelências do Supremo Tribunal Federal.
       Suspirou fundo, resignado. Anotara tudo, documentara; imprimira um resumo para consultar. Nada mais poderia fazer que não fosse aguardar. Sair de casa? Nem pensar. A imprensa acampara na sua porta, ávida por escândalo. Isso vendia muito, atraía anunciantes, audiência. “Quem comanda as editorias é o departamento comercial”, dizia. Eram caçadores à espreita, pacientes e renitentes. Se não lhes dava alguma coisa, reciclavam o que já haviam dito numa mesquinha vingança.
       Levantou-se e buscou o uísque, o gelo e o copo já usado, que estavam sobre o frigobar. Serviu-se de mais uma dose e depositou o balde com gelo e a garrafa na mesa de centro, junto aos documentos e ao alcance das mãos. Bebeu um gole magnânimo e se pôs a meditar, numa tentativa inócua de encontrar ressalvas que lhe favorecessem.
      Seus pensamentos foram em direção ao passado. Ali talvez houvesse algo ou alguma coisa que lhe desse alento, algo que pudesse levantar-lhe o ânimo. Foi regressando período a período, ano a ano. Na juventude encontrou o seu melhor momento, delimitado com clareza entre a formatura e o casamento. Somente seis anos... Nove, se contasse os três primeiros anos de casado. Depois e antes, breves flashes de alegrias, momentos fugazes como a vitória numa concorrência pública ou da conquista de uma nova e ambicionada amante. A compra de uma lancha, um sonho de adolescente, fora outro momento de excitante felicidade. E, mais? E os filhos? Sim, o nascimento dos filhos fora um bom momento de sua vida. Principalmente Antônio que veio ao final do primeiro ano de casado. Ficara radiante, estava feliz com a bela esposa e um filho homem, coincidindo com a compra da casa no Morumbi. Dias de muitas festas, gente importante para seus negócios. Um período de muitas certezas, como a constatação de sua habilidade de negociação, de consolidação empresarial e ofertas de negócios além da capacidade operativa. Sim, Antônio nasceu fortalecendo-lhe o ego.
        Dois anos depois nasceu Gabriela. A época era de fastio, de uma sensação de cerceamento da liberdade individual e a filha, em que pese ser bem-vinda, não lhe trouxe nenhum alento, ao contrário, aumentava o laço de dever familiar, de uma presença mais constante quando queria alçar voos, ter mais liberdade. Ali começava a sua vida de passividades, de aceitações de limites, da diminuição de seu mundo à família e ao círculo empresarial e político. Com isso, o desamor, irritações, aumento do consumo de álcool, bebedeiras homéricas e brigas constantes com Ana Maria que, nesse segundo pós-parto, se revelou fútil, possessiva... “Uma decepção. Depois disso... Nada, nenhuma satisfação. Somente as aventuras com as ninfetas desse mundo imenso...”
        Ana Sofia, a primeira de tantas. “Como era linda e que perfeição de corpo já aos treze anos. Carnes bem distribuídas, pele sedosa e uma graciosa falta de jeito. Custou caro, mas foi um bom investimento. Por seis meses, gozos felizes, plenitude para qualquer homem.” E quis mais. Com menos experiência, menos idade. Quanto mais nova, mais garantia de primeira mão, de um delicioso trabalho de iniciação aos prazeres mais sacanas. Foram tantas, nem dava para lembrar uma a uma. Negras, mulatas, brancas, asiáticas... Contudo, uma ficou mais tempo e tornou-se inesquecível. Júlia Conceição Costa.
       A Julinha tinha doze. “Essa foi fantástica. Deu para acompanhar o desenvolvimento dos seios, o aumento dos pelos pubianos, a metamorfose mágica de uma menina em mulher.” Ensinara-lhe tudo durante mais três anos de desfrute. Morena, quase mulata, não havia cansaço de observá-la nua; a cada encontro uma descoberta A mãe ganhara uma casa, um bom emprego. Muito dinheiro gastado. Mas, foram anos de deslumbramento e real felicidade. Quando fez quinze anos, engravidou. Filho dele? “Não!... Deve ter arranjado um namorado sem eu soubesse. A ingrata. Despachei-a do apartamento que tenha só para receber as garotas, onde vivia bem.” Enviou-a, com a família, de volta ao nordeste. Teve que jogar duro, usar mãos de ferro para convencê-los que o melhor que faziam, agora, era viver na terra Natal.
       Para variar um pouco, investimento e tempo foram necessários para levar para a cama a mulher de um engenheiro da empresa. Recém-casada, foi necessário usar de certos artifícios, inclusive colocar em suas mãos o futuro do marido na empresa e na profissão. Ao final, “a coroação de mais uma vitória, da glória de possuí-la com animalesca vontade... Logo correspondida. Era lindíssima! (Ainda é). Perfeição e pervertida, masoquista. Quanta excitação, quantas sacanagens! Dividida até com um colega, sob o efeito de drogas de primeira linha. Esse dia ficou na história, pois ela quis os dois ao mesmo tempo, um na frente e o outro atrás, ainda pedia que lhe batessem. Virou motivo de festas particulares, certeza de muita diversão e prazer...” Quanto ao marido, foi despachado e, como consolo, ganhou a direção de uma importante obra na Venezuela.
       Agora, com a imprensa em cima, de olho, a vida defasada, a obrigação de ser mais comportado, bom marido... “Até quando? Até surgir outro escândalo. Se quisessem, arranjar-lhes-ia um, noutro ministério. Falcatruas não faltam, basta ser bem informado.“
       “Cinquenta anos... Uma CPI que pretende a degola de uma vida de trabalho. Mas eles teriam surpresa. Possuo muitos documentos, conheço muita gente ‘boa’ que quer minha cabeça. Conheço muita gente ‘boa’ que pode perder a cabeça. Não sabem que tenho o poder de também guilhotinar. Que esperem.” Terça, dia de fazer cinquenta anos de vida. Dia de presentes, surpresas, de reencontros.
       “Fico aqui pensando... Minha mulher, a Ana Maria, tornou-se frívola e perdulária ao longo do tempo. Virou madame, dessas bem chatas. E haja dinheiro pra cirurgia plástica, pra frequentar SPA, comprar roupas de costureiros bichas e famosos... Ah!... Tem aquele negócio, também, de mandar um envelope para os colunistas sociais, com uma bela foto e algumas notas de cem reais. Às vezes notas de dólar... E quem banca sou eu, a quem ela chamou algumas vezes de corno. Cínica! Tem seus amantes? Tudo bem, mas seja discreta, respeite e tenha consideração com quem lhe dá tudo o que quer e tudo que tem!”
      “Outra coisa que me tira do sério: sou muito criticado por pagar baixos salários aos meus funcionários, mas o que querem afinal os meus críticos? Não fui eu quem criou o sistema, as leis. O que não falta neste país é gente querendo emprego. Os que se sentem insatisfeitos com o que ganham é só sair, se demitir, não vai faltar ninguém para a vaga deixada. São quase dois mil funcionários em várias frentes de trabalho, quanto menos pago, mais lucro tenho e empreiteiro vive do lucro, como em qualquer outra atividade empresarial. Não tenho culpa se temos tantos desempregados neste Brasil, o que me possibilita fazer uso de uma mão-de-obra rotativa.”
       “Eu dou emprego para essa gente, ponto final. Não sou como muitos que usam o capital em especulações na bolsa. Esses não geram postos de trabalho, eu sim. Critiquem, mas não sejam petulantes.”
“’Ele só ganha concorrências porque paga propina’”... Vejam só o cinismo. Quem é que não paga? Quem do governo ou fora dele que não vive atrás de dinheiro, de uma fatia do bolo? Sou frequentemente achincalhado, vivo sob pressão de lobistas, políticos, polícia... Até polícia! Bisbilhotam a minha vida, ouvem meus telefonemas e depois vêm pedir grana pra não me ferrar... Porra! Já estão me ferrando, caralho!”
       “Outro dia, apareceu aqui um sujeito se dizendo representante de um dono de jornal. Queriam um ano de anúncio de página inteira das obras da minha empresa, em troca não me criticariam e até me ajudavam com editoriais e artigos, no caso da CPI. E olha que já tenho cinco deputados na folha de pagamentos, além de um senador, três prefeitos e outro que nem quero mencionar... E eu pago mal meus funcionários! Mandei o cara se ferrar com o seu representado e seu jornalzinho de merda!”
       “O cinismo! Esse é o grande mal deste país. Dou duro, trabalho todos os dias da semana, dez, doze horas, diariamente. Sou honesto no que faço, não dou calote em ninguém: cem mil pra liberar a verba do viaduto? Tá legal: pegue aqui os seus cem mil; ah... Precisa de dinheiro pra fazer campanha? Tome seu dinheiro, vai fazer sua campanha... E pago. Pago tudo que me cobram. Ainda querem que eu pague salários de marajás para meus funcionários! E é só o que ouço, pague isso, pague aquilo, pague, pague... Pago pra viver, essa é a verdade; e viver feito burro de carga, trabalhando que nem um louco!”
       “O pior é que pago até para foder! Sim, senhor! Acha que essas meninas custam pouco? Tenho que dar grana pro sujeito que me arranja as garotas, pra mãe ou o pai que querem lucrar com a xoxota da filha... E depois não me deixam mais em paz, todo mês querem uma grana extra, me pressionam, dizem até que sou safado! Quanto cinismo, meu Deus! Safados são os que vivem à minha custa, à custa do meu dinheiro, do meu trabalho. Às vezes me canso de agir honestamente com esses exploradores. Dá nisso, querer ajudar, sem bom com as pessoas; você dá a mão querem depois o pé e o corpo de sobremesa.”
      “Mas não vão me dobrar, não. Estou pronto pro que der e vier! Se quiserem me ferrar, que me ferrem — levo muita gente junto. Quando chegar à Brasília, na terça, vou dar o aviso... Vossas senhorias que se cuidem e, igualmente, cuidem bem de mim!
Chega de cinismo! Estou farto.

4 comentários:

Anônimo disse...

nossa Osair. fico impressionada com sua imaginação prá criar tudo isso. onde foi buscar tudo isso?
e fiquei feliz de vir aqui e ver que ainda está escrevendo.
abraço. maria.

Anônimo disse...

ah! esta sua foto no perfil está muito bonita. parece pensativo, olhar perdido num horizonte de possibilidades...

Uma das almas... disse...

Parece que não sou o único ausente das leituras de suas obras.
O tempo! Sempre o tempo, a desculpa para as ausências.
Mas, foi bom! Foi bom para poder sentir saudades e também, para perceber que sua imaginação continua fértil e voando numa velocidade maior que a da Luz.
Um abraço!

Anônimo disse...

Surdo Canto

canto a mudez
da alma…
um grito surdo
solto ao vento.
a pluma leva…
mas… imunizada…
joga aos pés do tempo.
é o meu lamento…
vejo tudo ao chão.
não tenho mais perdão.
é certo...
meu canto…
soluço da alma…
não tem mais eco,
ninguém mais ouve.
perdido, sem alento,
é um canto mudo,
um grito surdo,
solto ao vento…

Maria.

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