Ao acordar na manhã de domingo, Glória sentia um vazio sossegado, uma lassidão de quem, agora, não tem pressa. Viu que já se passava das dez horas e o silêncio na casa era o pano de fundo ideal para o seu estado de ânimo. Rolou sobre si mesma, emaranhada no lençol e espreguiçou-se demoradamente. Tinha resoluções que precisava ajustar ao momento, fazer por si o que deixara de fazer por vinte e cinco anos. O casamento da filha, na noite anterior, a deixava livre para fazer uma revolução interna e externa, viver uma nova vida, reinventar-se para encontrar algum sentido no existir.
Não encontrar o marido na cama, logo cedo em pleno domingo, não era novidade. Há muito tempo deixara de contar com ele como o parceiro de uma vida a dois, feliz, com cumplicidade e afeto. Esse sonho de adolescente ficara perdido em algum lugar do tempo entre a criação dos dois filhos e a partida deles, para o mundo, na construção de seus
próprios destinos. Esse domingo era o início de uma reviravolta que esperara com bastante paciência e sofrimento calado, enquanto Milton vivia com se fosse solteiro.
próprios destinos. Esse domingo era o início de uma reviravolta que esperara com bastante paciência e sofrimento calado, enquanto Milton vivia com se fosse solteiro.
Não que tivesse sido omissa nas atitudes egoístas do marido. Tentara conversar, brigara, ameaçou acabar com o casamento unilateral, aturou mais do que supunha ser capaz. Ele prometia, sempre que via a situação se agravar entre ele e Glória, que iria mudar. Promessas das quais se saturou e calou. Amaldiçoou o destino, chorou escondida a sua dor até perceber que sua sina era da sua própria responsabilidade. Ela era a atriz de sua própria peça, encenada dentro daquela casa, junto com aquele homem e os filhos... Os filhos, agora, já não faziam parte daquele enfadonho espetáculo. Ela sentia-se enfim, apta a reescrever o roteiro do que iria viver dali por diante.
Levantou-se, por fim, e tomou um demorado banho. Depois, com a calma de quem tem a eternidade, analisou sua imagem refletida no espelho do closet. Aos quarenta e cinco anos, ainda era uma bela mulher, os seios ainda firmes para quem amamentou dois filhos, o corpo bem feito, a pele pouco revelava a idade, e um sorriso belo na boca carnuda. Lembrou-se de Gilvan e sorriu. Ele a vira tomando banho na casa de praia há três anos e, desde então, se sugeria para ela, fazia um flerte pouco dissimulado, enquanto ela, com a autoestima elevada, fingia nada perceber. Quem não a percebia, era Milton, seu marido. O sexo era muito ocasional, rápido, sem a mínima preocupação com o seu prazer. Nos dois últimos anos, fizeram sexo uma única vez e ela, cansada de ser preterida no seu gozo, passou a evitá-lo, o que de certa forma, pareceu-lhe ser o que ele realmente desejava.
“Uma bela e gostosa mulher”, murmurou para si mesma, com alguma timidez, fruto da autorrepressão. O que não invalidava a verdade da sua frase. Com um pouco mais de ousadia, disse: “essa mulher não é pra você, Gilvan... Não para os amigos do Milton!” Sorriu satisfeita e foi se vestir. Caprichou na roupa, um vestido solto, com estampas alegres, aplicou uma leve maquiagem. Depois de vinte minutos foi tomar um café e ler o jornal. Sentia-se bem, em paz e, sobretudo, uma mulher dona de seu futuro, com poderes e disposição para ser feliz.
Ouviu uma buzina na porta. Deu uma última olhada na casa e saiu. Levando consigo apenas duas malas, entrou no táxi e partiu. Não olhou para trás, a futuro a esperava num claro domingo de sol.
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