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28 de set de 2010

ATITUDE

Ao acordar na manhã de domingo, Glória sentia um vazio sossegado, uma lassidão de quem, agora, não tem pressa. Viu que já se passava das dez horas e o silêncio na casa era o pano de fundo ideal para o seu estado de ânimo. Rolou sobre si mesma, emaranhada no lençol e espreguiçou-se demoradamente. Tinha resoluções que precisava ajustar ao momento, fazer por si o que deixara de fazer por vinte e cinco anos. O casamento da filha, na noite anterior, a deixava livre para fazer uma revolução interna e externa, viver uma nova vida, reinventar-se para encontrar algum sentido no existir.
Não encontrar o marido na cama, logo cedo em pleno domingo, não era novidade. Há muito tempo deixara de contar com ele como o parceiro de uma vida a dois, feliz, com cumplicidade e afeto. Esse sonho de adolescente ficara perdido em algum lugar do tempo entre a criação dos dois filhos e a partida deles, para o mundo, na construção de seus
próprios destinos. Esse domingo era o início de uma reviravolta que esperara com bastante paciência e sofrimento calado, enquanto Milton vivia com se fosse solteiro.
Não que tivesse sido omissa nas atitudes egoístas do marido. Tentara conversar, brigara, ameaçou acabar com o casamento unilateral, aturou mais do que supunha ser capaz. Ele prometia, sempre que via a situação se agravar entre ele e Glória, que iria mudar. Promessas das quais se saturou e calou. Amaldiçoou o destino, chorou escondida a sua dor até perceber que sua sina era da sua própria responsabilidade. Ela era a atriz de sua própria peça, encenada dentro daquela casa, junto com aquele homem e os filhos... Os filhos, agora, já não faziam parte daquele enfadonho espetáculo. Ela sentia-se enfim, apta a reescrever o roteiro do que iria viver dali por diante.
Levantou-se, por fim, e tomou um demorado banho. Depois, com a calma de quem tem a eternidade, analisou sua imagem refletida no espelho do closet. Aos quarenta e cinco anos, ainda era uma bela mulher, os seios ainda firmes para quem amamentou dois filhos, o corpo bem feito, a pele pouco revelava a idade, e um sorriso belo na boca carnuda. Lembrou-se de Gilvan e sorriu. Ele a vira tomando banho na casa de praia há três anos e, desde então, se sugeria para ela, fazia um flerte pouco dissimulado, enquanto ela, com a autoestima elevada, fingia nada perceber. Quem não a percebia, era Milton, seu marido. O sexo era muito ocasional, rápido, sem a mínima preocupação com o seu prazer. Nos dois últimos anos, fizeram sexo uma única vez e ela, cansada de ser preterida no seu gozo, passou a evitá-lo, o que de certa forma, pareceu-lhe ser o que ele realmente desejava.
“Uma bela e gostosa mulher”, murmurou para si mesma, com alguma timidez, fruto da autorrepressão. O que não invalidava a verdade da sua frase. Com um pouco mais de ousadia, disse: “essa mulher não é pra você, Gilvan... Não para os amigos do Milton!” Sorriu satisfeita e foi se vestir. Caprichou na roupa, um vestido solto, com estampas alegres, aplicou uma leve maquiagem. Depois de vinte minutos foi tomar um café e ler o jornal. Sentia-se bem, em paz e, sobretudo, uma mulher dona de seu futuro, com poderes e disposição para ser feliz.
Ouviu uma buzina na porta. Deu uma última olhada na casa e saiu. Levando consigo apenas duas malas, entrou no táxi e partiu. Não olhou para trás, a futuro a esperava num claro domingo de sol.

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