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13 de set de 2010

CASO DE POLÍCIA


Quando a polícia chegou para prender Argemiro, perto de nove horas da noite, ele estava embaixo de Ronaldo, um servente de pedreiro da construção vizinha; e não era briga. Miro, como gostava de ser chamado, tomara gosto por barbas mal feitas roçando sua nuca e um membro duro e robusto dentro do seu “monossílabo traseiro”. A brincadeira estava no seu auge quando os três agentes da lei entraram no quarto gritando “polícia! Não se mexam!”.
Como eles continuassem a se mexer, num frenesi quase alucinado, tiveram que ser separados à força. Ronaldo, negro forte e viril, ficou branco e murcho imediatamente após perceber, com certo atraso, o que estava acontecendo. Ao contrário de Miro, que numa fúria bestial, chutou dois dos homens e tentou sair correndo do quarto, urrando,
dando cotoveladas como se seus braços fossem asas a se debaterem num voo desengonçado. Caíram-lhe em cima com murros, chutes e coronhadas e depois o algemaram.
Na confusão, quem acabou fugindo foi o Ronaldo. Aliás, os policiais não ligaram a mínima pelo seu destino. Quem eles queriam já estava dominado fisicamente e pronto para ser levado ao distrito. Só não estava dominado verbalmente. Miro não se conformava com aquela intromissão na sua vida privada, ainda mais num momento em que se sentia no sexto céu e à caminho do sétimo.
– Seus filhos-da-puta, não dava pra esperar um instantinho, só? Desgraçados, filhos de corno!...
Mais alguns sopapos e ameaças não o calaram e assim, xingando e maldizendo as genitoras e genitores dos “homens da lei”, foi levado à viatura e jogado na jaula do porta-malas. Os gritos e palavrões que saiam da traseira do veículo oficial foram abafados pelo som escandaloso da sirene, ardilosamente acionada por Leocádio, agente de terceira e que levara o primeiro chute, lá no quarto.
Juruna e Shiro, os outros dois policiais, tramavam a melhor forma de dar um sumiço definitivo em Argemiro.
– Esse viado passou dos limites! Perdeu o respeito da autoridade da gente! Perdeu a vergonha... Eu quero fazê ele! – Juruna, como querendo reafirmar sobre quem falava, olhou para a traseira da viatura.
– Não! Esse cabra safado é meu! Vou dar um tiro no seu rabo, enfiar o 45 bem no fundo e descarregar! Deixa comigo... Esse safado é meu! – Shiro também deu uma olhada rápida para trás.
A discussão entre os dois eram aos berros, cada um arquitetando o que faria para dar cabo do infeliz do Argemiro. Contudo, foram interrompidos por Leocádio, que dirigia. Ele deu uma freada brusca e encarou os dois companheiros que se assustaram com ato inesperado, sem mencionar que quase saem pelo parabrisas.
– Prest’atenção cêis dois: nossas ordem é pra levar o meliante pro delegado Nogueira! E é pra lá que ele vai... E cês calam essas bocas que meu ouvido não é penico! Se não entederam, a gente desce e resolve isso agora!... Tenho dito!
Seguiram em silêncio o restante do trajeto, cada um emburrado com o outro e cansados da longa procura pelo, agora aprisionado, elemento. Este, já não xingava e parecia dormir. Shiro olhou para o relógio e suspirou: ainda faltavam mais de três horas para o final do plantão. Na verdade, gostaria mesmo era de estar em casa, dormindo enroscado com Sinara.
Ao chegarem à delegacia, foram diretamente procurar pelo doutor Nogueira. Azaradamente ele tomava um depoimento e fez um gesto com as mãos para que aguardassem. Seguiram aborrecidos até à copa para tomar um café frio e matar o tempo. Não demorou e davam risadas sobre a recente prisão, o inusitado da cena que encontraram ao entrar no quarto de Argemiro.
– A bicha achou ruim estragar a enrabada! – riram.
– “Não dava pra esperar um pouquinho...” – arremedou caricatamente o Leocádio.
– E o negão que comia ele... deu um pinote e desapareceu! – Mais risadas e logo gargalhavam. Nesse momento entrou o delegado Nogueira.
– Que farra é essa? Pegaram o sujeito?
– Sim, senhor.
– Pegamo, doutor!
– Onde ele está?
– No camburão, doutor!
– Leva ele na minha sala e vamos trabalhar.
Saíram apressados rumo ao estacionamento. Encontraram a viatura toda aberta e vazia. De Argemiro, somente algumas gotas de sangue da surra que levara. Ainda faltavam duas horas e quinze minutos para o fim do plantão.

Um comentário:

Jodenon disse...

Tem duas situações fazer parte de família de artistas escritores. Uma é sentir orgulhos de tê-los como irmãos e se deliciar com o que escrevem. A outra é que você fica até sem jeito para continuar escrevendo também.
Adoro seus contos e crônicas.
Um abraço!

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