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10 de set de 2010

O ÚLTIMO CHARUTO DA CAIXA

Fumava seu “puro” cubano com todas as pompas que a circunstância exige de um bom connaisseur.  Um velho amigo seu, dos bons tempos, Lamelas Molina, enviava-lhe uma caixa todo ano e ele sempre os reservava para ocasiões especiais. Hoje era uma destas ocasiões. Ao acender o último charuto da bela caixa de madeira com monogramos gravados a ferro quente, fez como de costume e deixou queimar um pouco no cinzeiro: isso dissipava o gosto amargo inicial que até os melhores, como os “puros Habanas” têm. Depois foi só saborear. O aroma era-lhe inigualável e o sentimento de se ser um privilegiado, nestas horas, era quase uma condição.
Nestes momentos, também, vinha-lhe uma nostalgia e relembrava os anos que passara em Cuba ajudando nos primeiros anos da revolução. Fidel e seus amigos haviam deposto “o lacaio dos gringos”,
Fulgêncio Batista, depois de anos de poder ditatorial. “Aquele belo país” relembrava, “se viu livre de anos e anos do subjugo ao American Way of Life”. Quando lá chegou, a ilha passava por uma revolução sem precedentes nas Américas e o entusiasmo das pessoas contagiava num surto de esperanças que achou deveras comovente. E se contagiou.
Os anos passaram e a velha máxima se fez valer para si e alguns outros: “Quem não foi comunista até os trinta anos de idade, não teve coração; quem continua comunista depois dos trinta, não tem cérebro”. Voltou ao Brasil nos anos iniciais ditadura militar, com seu cérebro funcionando muito bem e fez um acordo com os militares – hoje podia relembrar-se disso sem constrangimento. Foi lucrativo para os dois lados. Ele sabia muito sobre Cuba e os brasileiros que lá estavam e estiveram. Os militares queriam estas informações. Fecharam negócio e ele se tornou um próspero empreiteiro, ganhando rios de dinheiro que gastava igualmente. Manteve a amizade com Molina, “que não era bobo e ganhava o seu também”. Sorriu, satisfeito, e deu mais uma baforada.
E os anos continuaram a passar... Cuba sentiu o peso do fim do comunismo no leste europeu e na URSS, hoje e novamente Rússia. O peso que recaiu sobre ele, o traidor-negociante-empreiteiro, foi o do fim do regime militar. Entraram em decadência e, numa hábil visão de futuro, buscou garantir uma boa velhice casando-se com uma herdeira de um dos maiores conglomerados da indústria têxtil do país. Filha única, e veio saber depois, uma puta de uma sovina. Contava as migalhas que depositava em sua conta e ainda lhe jogava na cara desaforos que não teve coragem de repetir. Essa era sua maior mágoa. Mas no todo, teve uma boa vida, nunca ninguém soube do seu papel no regime de 64 e só lamentava por Lamelas a quem abandonou à sua própria sorte. “Mas amigo é amigo”, recordava. “Nunca, em nenhum único ano, ele deixou de lembrar-se de mim, mandando vir minha caixa de charutos prediletos. Bom e velho molina”.
O charuto já queimara em quase dois terços e viu quase seis centímetros de cinza na ponta, firme, como deve ser a cinza de um “puro”. Quebrou-a no cinzeiro e se lembrou do motivo da comemoração. “Elda, coitada. Uma morte estúpida. Cair de cadeira de rodas na piscina... A infelicidade de uns vem pela felicidade de outros”. Celebrava a riqueza outra vez, como herdeiro único, já que não tiveram filhos. O último charuto da caixa era o prenúncio de muitas caixas e muitas viagens. Pensou em voltar à Cuba e dar uma gratificação ao seu amigos pelo silêncio valioso para si e “honrado” para ele. Pelas várias caixas que recebera mesmo sabendo que o Lamelas Molina vivia na mais absoluta miséria.
Fez um brinde solitário aos velhos tempos, deu uma última baforada, contudo se engasgou no instante em que iria soltar uma longa cauda de fumaça aromática. Não soube o que lhe ocorreu e jamais saberia. Do alto do muro, um homem magro, barbudo e com olhar decidido, recolhia o rifle de precisão telescópica e repassava ao jovem que estava embaixo, do lado externo do amplo terreno da grandiosa mansão. O barbudo pulou de volta ao chão, bem ao lado do seu companheiro.
- Tiro recto?
- Si. Justo en el medio del corazón...
- Y ahora?
- Mañana ponemos buenas ropas y afeitamo las barbas. Después hacemos solicitacion del asilo político. Vamos a vivir en Brasil. Yo e tu, mi hijo!
Passava da meia-noite. A cidade estava quieta, quase sem movimento. Os dois vultos se encaminharam rumo ao quarto de pensão que alugaram dias antes, com suas caixas de instrumentos. Uma de trompete e a outro de sax tenor.

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