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6 de set de 2010

A VISITA

Demorei a dar-me conta de que alguém batia à porta, pois o som era baixo e oco, como se estivessem batendo com a dobra de um dos dedos na madeira, testando a sonoridade produzida. Na verdade fiquei em dúvida se batiam mesmo ou não e tive que parar a leitura do livro de direito civil para prestar atenção. Eu não esperava ninguém e, morando sozinho, era, fosse quem fosse, uma intromissão indesejada na minha gostosa e solitária noite de sábado. Bebi mais um gole do vinho olhando na direção da porta da sala. “Tenho que instalar um olho-mágico...”
Marquei a página com um panfleto que anunciava promoções de periféricos em uma loja de informática que chegou às minhas mãos numa parada no sinal de uma rua qualquer. Mas isso nem vem ao caso. Para ser franco, repassar os olhos naquele anúncio e colocá-lo para assinalar a página que estivera lendo, até ser
interrompido pela discreta batida, foi apenas para postergar o ato de abrir a porta. Tinha esperanças que a pessoa que me perturbava, desistisse e fosse embora. Só que a batida se repetia em intervalos métricos. Agora o som era claro e até irritante.
De pé, estirei o corpo num alongamento preguiçosamente intencional e coloquei os óculos de leitura sobre a mesa de jantar. Se eu morasse num apartamento seria muito melhor: o porteiro me avisaria da visita e eu o despacharia (ou não) dali mesmo. Sempre gostei mais de morar em casa comum, com quintal e jardim, mas apartamento também tinha as suas vantagens; se bem que eu poderia fazer de conta que não estava em casa, ficar quieto e esperar a pessoa que batia ir embora. Agora fiquei na dúvida: ainda dava tempo de despachar o intruso, ou intrusa, sem fazer nada. Bastava ficar quieto e em silêncio.
Bobagem... Melhor abrir logo e despachar. Não gosto de dissimulações e, sem contar que, também bate uma curiosidade nestas horas. Você não espera ninguém, vive sozinho e em paz, quando, no meio da noite alguém chama na sua porta – quem não ficaria curioso em saber o por quê daquela inusitada visita? Fui calmamente abrir, ensaiando um ar aborrecido, o que era quase uma verdade. Destranquei com duas voltas da chave e abri. Não havia ninguém! “Estranho...”. Entre a porta e portão havia uma distância de dez metros e, mais estranho ainda, o som de batida continuava. Era na janela, também de madeira. Ri meio sem graça por aquela estranheza toda que sentira. Ventava e um galho seco da roseira batia na aba da janela da sala. Fui até ela e arranquei o galho. “Pronto!”
Entrei e tranquei novamente a porta sentindo um desapontamento. Olhei para o livro em cima da mesa e o desapontamento virou tristeza. Peguei a garrafa de vinho, ainda pela metade, me joguei no sofá e, pelo primeira vez em muitos anos, senti o peso da solidão, entre um gole e outro no gargalo da garrafa.

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