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12 de out de 2010

O TAXISTA

Nem me lembro mais há quanto tempo trabalho dirigindo por todos esses cafundós dessa cidade dos infernos, por suas ruas, avenidas e becos, atulhada de gente, motos, bicicletas, carros, ônibus e caminhões, sem falar nas carroças. Cada qual disputando o seu espaço com a ira de mil demônios, buzinando, gesticulando, brigando com os outros e com eles mesmos.
A vida de taxista é uma merda; isso é o melhor que posso dizer da minha profissão maldita. Uma merda! E como tal, sou tratado pelos meus passageiros, com raras e honrosas exceções. E o pior (sim, ainda há casos piores), é que o faturamento mal dá pra viver e, no meu caso, que sou casado, o dinheiro está sempre faltando. Ai, depois de doze horas dirigindo entre engarrafamentos, de lá pra cá e o inverso, quando chego em casa para descansar
os ossos moídos, os músculos em pandarecos, tenho que suportar as reclamações da minha mulher, dos filhos e até da sogra.
Vivo como um burro de cargas, sem descanso, sem alegrias.
Na semana passada, um sujeitinho besta, metido à bacana num terno em que o defunto era bem menor, entrou no carro e foi dizendo com uma vozinha autoritária: “Toca rápido para o Cambuci!”. A voz pastosa não deixava dúvidas de que ele estava bêbado, completamente chapado. Não gostei, mas não posso me dar ao luxo de recusar corridas. Contudo, só pra contrariar o “mala”, fui devagar. Qual é, achando que sou empregado dele?
“Mais rápido, ô pé-de-vento! Tô com pressa, não entendeu, ainda?”
Acelerei e entrei numa curva à toda. Olhei pelo espelhinho retrovisor interno e vi o infeliz ir de uma porta à outra, escorregando no banco traseiro.
“Num sabe dirigir não, idiota! Deve ter comprado a cart...”. Não terminou a frase e, numa rápida olhada no espelho o vi fazer uma careta e travar a boca. Parecia que ficara verde e suava frio, enquanto o som de um engulho, a mão na garganta, veio desandar numa golfada de vômito, seguida de outras. Freei o carro, desci rapidamente e fui até à porta traseira e abri com violência. Ele estava com a metade do corpo no assento e a outra enfiada entre o banco dianteiro e o piso. As golfadas nojentas não paravam e, mesmo assim, peguei o imbecil pela gola do paletó e o arrastei para fora do carro, até no meio da calçada.
Ele queria protestar, porém a boca estava ocupada em expelir aquela nojeira toda. Segurei suas costas e procurei nos bolsos algum dinheiro que pagasse a corrida e desse também para lavar e assear o carro. O miserável só tinha uma nota de vinte reais no bolso. Peguei-a, dei-lhe um chute bem dado e fui embora, largando o traste lá mesmo, na calçada. Tive que dirigir com a cabeça do lado de fora e com todos os vidros abertos por causa do fedor que impestiara o carro.
Ah, que raiva! Eu fervia de fúria e até seria capaz de matar alguém! Fui para casa, pois além de já passar da meia-noite, o estado em que ficara o automóvel, me deixava sem condições de trabalhar. Ao chegar naquele miserável lugar que chamam de lar, cheio de rachaduras, pintura velha e televisão ligada no último volume. A passar pela sogra, ocupando todo o sofá da sala, ouvi a folgada ruminar:
“Credo, que mal-cheiro!...”
Minha digníssima mulher dormia, mas abriu os olhos e disse com voz sonolenta:
“Trouxe o dinheiro do aluguel?”
Não respondi. Fui tomar um banho. Demorei-me sob o chuveiro que não “chovia”, mas só deixava escapar um fio de água irritante. Depois vesti um calção e fui olhar se havia alguma coisa para comer. Arroz, feijão, carne fria e mal passada, tomate aguado... Lembrei-me do cara vomitando aquela coisa toda que comera nalgum botequim de quinta categoria e desisti de jantar.
Sai da cozinha e dei um olhado nos meninos que dormiam. Era para eles que eu levava aquela vida. Só por eles. Fui para a cama. Tentei dormir, porém o volume da televisão não deixava. Levantei, voltei à sala e desliguei o velho aparelho com Bombril na antena interna. Minha velha sogra cochilava com a baba escorrendo pelo canto da boca, escarranchada no sofá. Voltei e sofri com uma insônia desgraçada até quase o amanhecer.
Acordei, no dia seguinte àquele incidente com o bebum, por volta das dez horas da manhã e encontrei minha sogra e a minha mulher na cozinha falando sobre a roupa de uma atriz. Dei bom-dia sem obter resposta, e fui tomar um café puro. Estava frio e o deixei pela metade, na xícara. Minha mulher saiu para a área de serviço, passando por mim em silêncio, enquanto a sogra voltava para a sala e ligava a televisão. Fui dar uma olhada no carro e, ao abrir os vidros, aquela nojeira fermentada exalou um fedor nauseante. Chamei meus filhos para me ajudarem a fazer uma limpeza básica antes de levá-lo ao lava-jato. Eles mal se aproximaram do carro, puseram os dedos nos narizes e se recusaram a me ajudar. Acho que no lugar deles faria o mesmo, por isso, apesar de zangado, resolvi levá-lo daquele jeito mesmo para fazer a limpeza e uma lavada geral.
Enquanto o carro era lavado, fui tomar um café decente e reforçado. O carro só ficou pronto por volta do meio-dia. Minutos depois já estava na praça trabalhando. Foi um dia regular e, apesar disso, ainda não conseguira reunir o dinheiro necessário para pagar o aluguel. No dia seguinte amanheceu chovendo e só fui trabalhar no período da tarde. Por volta das sete da noite, uma senhora já idosa, entrou no taxi e pediu-me que a levasse à um motel bem conhecido na cidade. Lugar caro, luxuoso e discreto. “Vai encontrar o amante”, pensei, cá com meus botões. Ela tentou puxar conversa, mas eu não estava nos meus melhores dias para conversar com madames ou qualquer outra pessoa que me fizesse sentir ainda mais miserável do que eu já era.
Pelo espelho eu a via ligar o telefone celular e desligar aborrecida, segundos depois.
Chegamos ao motel e, na portaria, a atendente perguntou se estavam esperando ou se minha cliente queria uma suíte. “Pegue a melhor suíte que estiver vaga”, ela me disse. Retransmite seu pedido à recepcionista que me passou a chave com o número do quarto. Localizei-a e estacionei na garagem, repassando a chave à senhora que a ficou balançando na mão e me olhando. Desviei o olhar para o taxímetro e disse-lhe o valor. Ela não disse nada e aguardei. Segundos depois ela me disse:
“Não quer descer, tomar um uísque e nos divertir um pouco?”
A proposta foi um susto para mim. Alguém com quem ela marcara um encontro, não aparecera e parecia que não daria as caras... Eu era, para aquela senhora, um substituto, alguém para que ela não perdesse a viagem e a sua diversão. Tentei não ser grosso.
“Desculpe, minha senhora, tenho que trabalhar!”
 “Você pode trabalhar comigo, querido.”
 “Não, obrigado... A senhora tem idade para ser minha mãe, sinto muito, mas não vai dar...”
“Quanto você ganha por dia?”
“Como?”
“Quanto consegue por dia com o seu taxi?... Em média...”
Disse um valor, um pouco acima da média, sabendo de antemão aonde ela queria chegar.
“Eu te dou o dobro, por algumas horas...”
“Escuta, senhora, eu não sou gigolô ou qualquer coisa que isso se chama... Agradeço, mas gostaria que a senhora pagasse a corrida, pois tenho que trabalhar”.
Ela tirou o dinheiro da bolsa, me pagou e desceu. Enquanto dava ré, para sair da garagem, ela disse:
“Babaca, idiota!”
Apontei-lhe o dedo indicador e sai com a sensação de realmente ser um babaca. Mas um babaca cheio de dignidade. Seria o dinheiro do aluguel, mas uma bruaca daquela! Não podia ser uma garota bacana, bonitinha? Com a senhora minha avó, jamais: isso é pecado mortal...
Sai para a rua em busca de passageiros, sentindo-me deprimido, com uma amargura pela vida besta e tão cansativa. Contudo o pior ainda estava para acontecer e dois dias atrás, antes de pegar o carro e sair em busca de passageiro, apareceu lá em casa um cara com uma intimação.
“Oficial de justiça. Assina aqui!...”
Assinei, o cara foi embora e ainda sem entender aquilo, abri o papel que ele me deixou. Era uma intimação para eu depor na delegacia... Que crime eu cometi? Não entendo esse palavreado de lei e fiquei preocupado. Perguntei para um passageiro, mais tarde, se ele era advogado. Tinha cara de advogado, mas respondeu que era engenheiro. Naquele dia, não entrou nenhum advogado no carro e, ontem, fui até à delegacia.
Não posso reclamar do atendimento. Fui bem recebido e tratado com educação pelo delegado, entretanto, fiquei colérico ao saber do motivo da intimação. O desgraçado que havia vomitado no meu carro, deu queixa de roubo e agressão. Filho-da-puta! Claro que o delegado, que não era bobo nem nada, ouviu a minha história e acreditou em mim, mas isso não bastava, pois, como ele disse, era o seu dever remeter o caso à justiça e até me instruiu a chamar o pessoal do lava-jato como testemunhas, quando o juiz marcasse a audiência.
Miserável! Vomita no meu carro e ainda fala que eu o roubei... Só faltava essa, eu ser preso por roubo, uma pessoa que não tem nada na vida justamente por ser honesto! Eu estava a ponto de explodir de raiva, indignação e revolta. Para meu azar, assim que saio da delegacia, dou de cara com o sujeito, chegando com alguém do lado, os dois bacanas de terno e gravata... Acho que era o advogado dele e, eu, nem advogado para me aconselhar eu tinha.
Fiquei cego. Vi o risinho torto do imbecil, desgraçado e parti para cima dele como um touro que arrebenta a cerca. Esmurrei sem dó, ele caiu e eu chutei na barriga, na cara... O advogado veio separar e levou uma cotovelada na barriga e, novamente, parti pra liquidar o filho-da-puta! A sorte dele foi que alguns policiais saíram com o barulho e nos separaram, ou melhor, me seguraram pois o desgraçado estava mais morto do que vivo na calçada.
Tiveram que chamar uma ambulância para levar o que sobrou dele para um hospital qualquer.
Agora, estou aqui, numa cela, preso em flagrante por agressão e tentativa de homicídio... É muito injustiça! Essa vida é uma merda, mesmo e nem sei porque ainda levanto todo dia para trabalhar feito um burro e ganhar menos que outro burro. Levanto, não... Preso, agora não sei o que fazer, muito menos como vai ficar os meus filhos.... Eu ainda cometo uma loucura. Qualquer dia desses, ainda sou capaz de cometer um desatino. Juro por Deus!

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