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27 de out de 2010

UMA NOITE TEMPESTUOSA

Juraci Anelo respirou profundamente e deixou o ar escapar devagar, enquanto limpava uma gota de suor da testa. O medo não o demovia da decisão tomada, mas acelerava os seus batimentos cardíacos. Testou a fechadura e viu que a porta estava apenas encostada, o que lhe facilitava a tarefa. Entrou com cuidado, olhando por onde pisava, silenciosamente até chegar à porta que dava para uma ampla sala. Uma música instrumental chegava aos seus ouvidos e parecia vir de um dos quartos. O seu maior temor, agora, é que as batidas do coração o denunciassem; afastou tal pensamento sabendo ser uma bobagem. Não havia ninguém na sala de dois ambientes da luxuosa casa.
Sabia muito bem que só havia uma pessoa ali dentro, além dele, e era essa pessoa que buscava com os olhos inquietos e dilatados. Com energia, foi em direção ao quarto de onde vinha a música, ciente de que não dava mais para recuar, mesmo que se quisesse. Ao aproximar-se da porta, enxergou uma sombra projetada por uma luz baixa. Encostou-se na parede ao lado e benzeu-se com o sinal da cruz. Era chegada a hora. Tinha que ser rápido e silencioso; tudo devia sair como planejado.
Um estrondo ressoou pela casa, antecipado por um clarão de flash. A chuva estava prestes a desabar sobre Vila Moréia e isso fez soar um alerta em sua mente. Chuva não era uma boa coisa naquela ocasião, poderia deixar sinais, marcas. “Rápido!”, pensou. “Faça o que veio fazer, aja com rapidez e precisão...”. Retirou a faca afiada de dentro de uma bainha de couro, colocada no cós traseiro da calça e entrou no quarto. A cena o deixou paralisado por instantes: o homem, sentado em uma poltrona de couro, de olhos fechados, regia a música com os dedos, com um meio sorriso no rosto, demonstrando satisfação. Próxima a ele, apenas a luz de um abajur clareava parcialmente seu corpo e o rosto gordo com uma papada saliente.
Aquele semblante de prazer, o meio sorriso, foi como um violento soco no rosto de Juraci Anelo que, numa incrível agilidade, precisando de apenas dois passos, se postou atrás da poltrona. Antes mesmo de parar totalmente no movimento de aproximação, passou a faca pelo pescoço do homem e cortou a garganta, que chegou a ensaiar um som, da esquerda para a direita.  O que se seguiu foi uma lava de sangue saltando pela carótida cortada ao meio; jorros pulsantes e um movimento instintivo de corpo, procurando se levantar. Contudo, o que se viu foram movimentos desordenados e o pesado corpo cair sentado no piso. A abertura, feita pelo golpe certeiro da lâmina afiada, se expôs, ainda mais, quando a cabeça se apoiou no assento da poltrona.
Juraci contemplou por instantes o que havia feito, com assombro e afastou-se para não ser atingido pelo sangue que espargia pelo quarto. Recuou, com pensamentos confusos, numa estranheza de si mesmo e do lugar onde se encontrava. “Calma... Calma...”, ouviu-se dizer. “Se recomponha, homem!” Olhou em volta e, aos poucos, foi retomando o controle, afastando-se em direção à porta. Caminhou em silêncio e com o mesmo cuidado que tivera ao entrar. Antes de cruzar a porta da cozinha, de onde sairia para o pomar, imaginou ter visto um vulto. Parou e voltou o olhar pelo corredor que levava aos outros aposentos. Nada. Apurou os ouvidos. Nada. Apenas as primeiras gotas de chuva sobre o telhado colonial. Deu mais uma olhada e saiu. Já no meio do pomar respirou fundo novamente e caminhou até a mata ciliar, cerca de 400 metros abaixo. Ali encontrou o córrego das Pedras, que como o próprio nome diz, tem o seu leito coberto dos mais variados feitios e tamanhos de rochas que descem da serra Verde com as chuvas. Caminhou sob o seu leito escorregadio e escuro, tropeçando e tateado, ao mesmo tempo em que a chuva aumentava de intensidade. Um raio iluminou, por instantes, tudo ao seu redor e imaginou que já havia caminhado o suficiente para sair dali para a segurança da noite, longe das residências. Logo avistou os contornos da velha ponte que ligava um lado a outro a cidade. Encostou-se num dos pilares de aroeira e largou-se no escorregar até a uma pedra grande que lhe servia de escora. Respirou profundamente e tentou se acalmar.
Fechou os olhos e a imagem do homem quase degolado ressurgiu como um filme e o via retorcer-se, o sangue jorrando feita água numa fonte artificial, iluminada de vermelho; o gruído e o sangue, muito sangue... Um forte relâmpago e a trovoada que se seguiu o fizeram abrir os olhos, assustados, inquietos. Quis sorrir ao constatar que cumprira com precisão o planejado (e isso fora há pouco mais de um dia passado), no entanto, o que veio no lugar do riso, foi uma careta causada por uma angústia que nascera em, algum momento que não soubera precisar, e crescia assustadoramente. Sentiu um aperto na garganta e pôs ali as mãos apressadamente, como faria o homem que acabara de matar, se ele tivesse feito apenas um corte superficial. Era uma aflição desconhecida quanto intensa. Quis tossir, expulsar aquela terrível sensação e só conseguiu emitir um som ininteligível seguido de um engulho que veio desandar num choro. Era um quase lamento que foi se intensificando ao ponto de fazê-lo perder a noção de tempo e espaço. Ele só conseguia chorar, alheio à chuva, ao córrego que aumentava de volume, ameaçando extrapolar o seu leito, aos raios e trovões, indiferente à noite densa. Unicamente um choro profundo e sentido existiam, naquele instante, sob a velha ponte de madeira.
A água fria o trouxe à realidade. Precisava sair com urgência daquele lugar ou morreria afogado. A correnteza aumentava em intensidade e força, com galhos mortos, pedaços de troncos podres a se chocarem com as pedras e resvalarem em seu corpo. Lembrou-se de Poliana. Devia estar com medo. Ela tinha medo de chuva, a sua pequenina. Tinha outros medos agora, além da chuva, mas a origem dos seus novos medos estava escancarado no chão, com a garganta aberta. Devia sair rápido dali, do refúgio debaixo da ponte. Poliana, sua pequena precisava de dele, da segurança do seu colo, das suas palavras carinhosas, do seu amor incondicional.
Fez um enorme esforço para romper a correnteza, porém seu corpo flutuou sobre as águas turbulentas e os braços se firmaram na coluna de aroeira, com força. Outro raio, como frash, gravou um instantâneo do córrego cheio, quase já sem margens, a oscilação tresloucada da correnteza. O trovão que o procedeu abalou o mundo e, por instantes teve medo, engoliu uma porção da água barrenta e tossiu, antes que os braços esfolados cedessem ao cansaço. Na escuridão, viu-se retorcer, girar ao sabor daquela diabólica correnteza. Ainda pensou na pequena Poliana a esperar por ele.

Osair Manassan

2 comentários:

Rosangela disse...

Intenso este conto,
eu gostei muito Osair.
Parabéns!
Bj.

Anônimo disse...

Parabéns!
Excelente conto!

Abs,
Valmont.

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