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30 de jan de 2012

ANIMAIS NOTURNOS

O RATO

No meio dessa cidade sem fim, de cores pálidas, repleta de labirintos de ruas e avenidas cercadas de prédios, coberta por viadutos e cortada em baixo por túneis de metrôs e de esgotos, existe uma horda de miseráveis sem passado ou futuro. Eles estão espalhados em todas as direções que sigo nas noites das minhas insônias, semiocultos. Cobrem-se com folhas de jornais de notícias vencidas, velhos trapos imundos e fazem de grossas embalagens amassadas, a cama em que se deitam, dormem e se procriam como ratos. Da calçada, da coluna do viaduto, da marquise das lojas, fazem suas casas.
Eles são os alienígenas que ninguém vê quando os procuram, pois olham para o alto, quanto estão ali, do lado. São o lixo malcheiroso que não é recolhido e assim vão apodrecendo, infestando a ar, empesteando a vida de quem transpira saúde e limpeza. A cada noite que passa, parecem se multiplicar, como células cancerígenas, e são invasivos, inoportunos. Eles me dão pena e esse sentimento incomoda, desperta a compaixão em mim.
Antigamente, caminhava despreocupado, curtindo a paz da madrugada, o ruído silencioso da cidade adormecida. Hoje, não tenho mais sossego, minhas andanças são feitas sob constante vigilância e me sinto coagido a mudar de calçada, a procurar novos caminhos para não me deparar com suas figuras agastantes, deprimentes. Eles vieram e levaram a minha serenidade. Vieram de mansinho, um a um e, agora, os vejo por toda parte, causando tormentos nas minhas noites outrora tão aprazíveis. E o pior é que ninguém toma uma atitude, não existe a preocupação 
de se recolher esse lixo subumano, ninguém se preocupa com o desconforto que eles nos causam.
Causam-nos aflição, mas sei também o quanto sofrem. Vejo-os padecer com o frio, com a fome, com seus próprios cheiros nauseantes e com suas incapacidades. Sofrem calados as suas doenças, seus martírios e parece que somente eu sou que tenho misericórdia dos seus infortúnios, da sina de nascer para serem suas próprias desgraças. Acho que aos olhos dos outros, são invisíveis; contudo, para os meus, são o retrato da desventura humana, desventura tão visível quanto a luz de uma lua cheia. De outro modo, não seria o único a ter-lhes piedade, a proporcionar-lhes o gozo bendito do sono eterno. Eles têm somente a mim e fico furioso, pois não pedi nem nunca quis ser um servo da bondade, da benevolência. Quando, Deus, terei de volta a minha paz? Quando minhas noites de sossego retornarão?
Não tenho ideia do que fazem durante o dia. Certamente mendigam comida, dinheiro para seus porres; roubam e negociam em busca da satisfação de seus vícios. Não tenho certeza, pois detesto o dia com toda a sua claridade e os insuportáveis barulhos. Recolho-me à minha casa totalmente vedada por grossas cortinas e durmo para repor as forças. A outra parte do dia, eu fico em meditação e, assim, busco fortalecer meu espírito para enfrentar as mazelas da vida. Não vejo televisão, não ouço rádio e, ocasionalmente, compro o jornal, tão logo chega à banca, ainda de madrugada. Sempre fui feliz assim, na minha solidão repleta de paz, e continuaria feliz se não fosse essa invasão de resíduos humanos na cidade.
Porém não sou um sujeito acomodado e, “noturnamente” trabalho em busca da paz perdida, proporcionando serenidade a eles, que têm sede de justiça misericordiosa. Se ninguém age para limpar os becos e marquises, se há não atitude para dar-lhes os sossegos que merecem, eu o faço. Custa-me muito, pois como já frisei, tenho asco, uma repulsa insuportável ante a proximidade de suas figuras grotescas e malcheirosas. Sinto que por ser-me penosa tal tarefa é por que não existe bem-aventurança sem sacrifícios. O trabalho de remover as pedras do caminho me fortalece.
Para não ser preciso tocá-los, ajo com a habilidade e a inteligência de que fui dotado, pela graça de Deus. Quase toda noite convido um daqueles seres para comer em minha casa, sacio-lhes a fome e a sede e os levo ao porão. O veneno na comida não leva meia hora para surtir efeito e, ao alcançarem o repouso eterno, sepulto-os ali mesmo, debaixo da terra fofa e acolhedora do meu subsolo. Depois de concluída a minha boa ação, sinto-me exausto e essa exaustão me dá uma tristeza profunda e lamento a minha vida. São lamentos redentores, de purificação da alma, e depois sinto-me em completa beatitude.
Não sou um tolo, sei que as minhas ações são apenas uma gota de água no oceano da miséria humana. É como querer apagar o fogo de uma floresta inteira usando uma mísera jarra de água. O que me consola é saber-me não omisso, sujeito ativo de uma ação necessária e benevolente. E quando o dia começa a despontar, vou dormir na serenidade de quem cumpriu com a sua missão, com honra e destemor. Sei que há alguém que repousa em paz, além de mim, sob o seio da terra-mãe acolhedora.
  
O GATO

Vinte anos trabalhando feito uma besta, correndo risco de morrer e o que eu ganho? Um salário de bosta, delegados almofadinhas querendo ensinar o meu trabalho e tome correria atrás de bandidos e de ladrões de galinhas. Sempre honesto, mais sobrevivendo do que levando uma vida de verdade. E a família? Filhos querendo bicicletas, videogame e outras coisas que nunca pude comprar. Escola, somente pública. E a mulher insatisfeita, me chamando de otário porque nunca aceitei receber propinas e alguns benefícios “por fora”.
Cansei. Cheguei ao meu limite e chutei o balde. Fui baleado num cerco contra uma quadrilha de assaltantes de bancos e fiquei dez dias no hospital. Percebi o quanto somos substituíveis e sem valor aos olhos dos grandões endinheirados, em suas imponentes mansões e carros brindados. Pagam a nós, um salário de fome para perseguir pés-de-chinelos e ficam no bem-bom, livres para roubar milhares de dólares e remeter para contas e mais contas no exterior.
Tive muito tempo para pensar naquele hospital público (penso que merecia um hospital particular bem equipado, mas...). Entre as coisas que pensei uma foi nos meus filhos, como ficariam se eu tivesse batido com as botas. Ficariam ao deus-dará. Aí, não. Não, mesmo! E, logo que recebi alta fui procurar um serviço extra. Faria, a partir de agora, um pé-de-meia, daria mais conforto à minha família e um carro decente para mim.
Lembrei de um sujeito, na 25 de março, que uma vez me sondou para fazer a segurança dum grupo de lojas. Fui até lá e disse que se ainda quisessem, estaria disponível para a vaga. Confesso que vacilei um pouco quando me disse o que teria que fazer, mas a grana era alta, podia inclusive comprar uma casa, sair do aluguel. Aceitei a proposta e fui logo pedindo um adiantamento. Não suportava mais uma constante dor nos dentes, precisava ir ao dentista; meus filhos também e a Norma, minha mulher.
O serviço era moleza. Espantar os pivetes que rondavam a rua para roubar clientes e os moradores de rua que faziam das marquises um lugar de consumo de crack, de cachaça, sem contar as orgias sexuais. O problema (fui descobrir com o tempo) era que sempre voltavam. Era que nem tirar água de canoa furada com uma xícara. Falei com o líder dos lojistas e ele disse que eu devia agir com vigor e fazer com que nunca mais voltassem. Entendi a mensagem, só que isso merecia um substancial aumento do meu salário extra. Ele entendeu e disse que se os resultados fossem visíveis, eu teria o aumento desejado.
Todos os dias quando deixava a delegacia, jantava no centro da cidade e depois ficava rodando, num velho Fiat com placa fria, ali nas imediações da 25 de março. Eu já conhecia quase todos os mendigos, pivetes e vapores do tráfego de crack.
Esperava uma oportunidade de surpreender um, daqueles arruaceiros, desacompanhado, chamava até a janela do carro e oferecia uma boa grana para um programa. Sempre funcionava. Via os olhos arregalados nas quatro notas de cinquenta e, a seguir, sentavam no banco do passageiro sem mais perguntas. Dali, seguia até um local ermo e fazia o serviço. Rápido, inclemente e sem dor.
Assim, com os resultados aparecendo, comecei a melhorar a vida da minha família. Comprei uma bela casa próximo de onde morava de aluguel e pintei, eu mesmo, com a ajuda dos meninos. Eles ficaram felizes com as bicicletas e os patins e Norma reformou a sua cozinha. Eu, como estava podendo, arrumei uma garota linda e pude, finalmente, ter a minha amante. Homem que está bem de vida tem que ter uma amante, senão pega mal.
Meu primeiro critério na escolha da pessoa que seria despachada era a condição espacial. Explico melhor para não parecer metido a besta: o indivíduo tinha que estar situado em algum local sem outra pessoa por perto. O segundo critério era a da condição física e sexo. Dava preferência aos mais fodidos e do sexo masculino. Mas já pegara duas mulheres, no caso, bem fodidas.
Um dia descobri algo anormal e resolvi investigar. Por duas vezes vi um sujeito bem vestido de terno e gravata, andando pela rua, acompanhado por um mendigo. Na primeira vez foi uma garota nova, viciada em crack. Na segunda vez ele era acompanhado por um velho, que vivia bêbado e que eu já havia levado para outra cidade tempos atrás. Procurei as duas pessoas que vira com ele e ninguém soube dizer para onde foram. Desapareceram. Pensei: aí tem coisa! Com paciência, fiquei de campana e duas semanas depois obtive sucesso. Ele surgiu na esquina em companhia de um rapaz, também viciado em crack e que usava as mulheres em programas para conseguir o dinheiro para sustentar o vício. Fazia pequenos furtos, também. Tava de olho nele, há tempos.
Segui a dupla, com muita cautela. Entraram em um casarão a três quarteirões de distância. Aguardei. Ninguém saiu da casa e, logo que amanheceu, liguei para um colega, o Argemiro e pedi que ficasse plantado ali e me ligasse assim que visse alguém deixar o casarão. Na delegacia, dormi um pouco. Depois sai em duas ocorrências e, voltei a tirar outra soneca.
Liguei para o Argemiro e ele me disse que ninguém tinha deixado a casa. Fui para lá, dei-lhe uma boa grana pelo galho que ele me quebrou e preparei para esperar durante a noite inteira. Mas não foi preciso tanto. Por volta de uma da manhã o sujeito de terno e gravata saiu em direção ao centro, calmamente e parecia até cantarolar “I sing in the rain”. Apaguei o cigarro, sai do carro e procurei uma forma de entrar na casa. Fechadura velha, coisa fácil. Uma vez lá dentro, vasculhei tudo, durante duas horas e fui recompensado. Senti um mau cheiro que vinha de um porão antigo, tão antigo quanto a casa. Desci e o cheiro tornou-se insuportável. Vi a terra remexida recentemente e adivinhei o que acontecia ali. Sai com uma insuportável ânsia de vômito e segurei até chegar à rua onde pus o jantar inteiro para fora.
  
O MORCEGO

Esse povo dos Direitos Humanos enche o saco! Tive que dar várias entrevistas explicando que estávamos trabalhando duro para encontrar os responsáveis pelo sumiço de vários moradores de ruas, nos últimos anos. Até falei que tínhamos vários suspeitos, o que obviamente não era verdade. Eu não me importava, não dava a mínima pelo desaparecimento de quem nem mesmo existia pelo poder público. Aliás, só passam a existir quando a imprensa cai de pau em cima deles, as vossas excelências, os governantes.
Eu me pergunto: quem é o responsável pela miséria que largueia por ai? Que não proporciona educação, saúde, políticas sociais? São vossas excelências! E a imprensa? A mídia? Lucra horrores com notícias sensacionalistas, usando os pobres coitados e suas desventuras para vender jornais, atrair anunciantes. E essa gente dos Direitos Humanos? A maioria é de políticos carreiristas, que quer mídia e voto fácil. Usa, igualmente, a miséria como trampolim.
Uns fabricam, outros lucram. A ganância está acima da dignidade humana. São todos eles, políticos e mídia, traficantes, os responsáveis pela existência desse grupo crescente de infelizes; são os responsáveis pela vida e pela morte. E acaba sobrando para nós, a polícia, o papel de vilões. A classe política nos cobra um responsável, numa atitude hipócrita. A mídia usa essa cobrança e a indigência deles para gerar mais notícia, gerar anunciantes, gerando dinheiro, muito dinheiro.
O tráfico, por mais incrível que pareça, é o menos hipócrita. Eles vendem sabendo o que vai acontecer, não esconde que querem o dinheiro, o poder de vida e morte. Suas excelências e a imprensa que não venham cobrar que limpemos a sujeira que eles alimentam. Trabalhamos duro. A nossa vida está em constante risco para lhes proporcionar um pouco de sossego. Não venham cobrar o que já fazemos além das nossas possibilidades. Falta salário digno, pessoal qualificado, falta armamentos e equipamentos de apoio, falta tudo, só não falta cobrança!
Reuni todo o meu pessoal e dei uma dura. Queria alguém, queria um responsável, um só que fosse que estivesse por trás daqueles sumiços. Assim eu largaria do pé deles e a imprensa sairia do meu. Mandei todo mundo pra rua. Há mais de ano tinha dois homens trabalhando no caso e os incompetentes não apresentaram um suspeito sequer. Mas eu tenho um suspeito. Ou, melhor, dois suspeitos, o problema é que são membros desta delegacia e reluto em investigá-los, não por corporativismo, mas por não ter ninguém de confiança para fazer esse trabalho. Não quero dar o prazer de passar o serviço para outro departamento da segurança pública. Somente aguardo. A qualquer momento eles se entregarão na autoconfiança, num descuido próprio da arrogância.
Não é admissível que policiais sejam juízes e carrascos, mas é compreensível. O maldito do dinheiro fácil, o dinheiro que lhes é negado pelo poder público, assalariando a todos com um montante vergonhoso. Mais uma vez, as excelências são responsáveis e fingem que não o são. Policiais trabalham muito, repito e ganham pouco. Por isso trabalham num segundo emprego, como seguranças, vigias de residências, outros se corrompem, se vendem para o crime. No final de qualquer análise, o poder público é o maior responsável por todos os desvios de conduta.
O Renato, por exemplo, um excelente agente, detetive de primeira, sempre honesto, trabalhador, foi baleado em ação e jogado numa enfermaria de um sujo hospital público. Ficou desiludido. Ele acha que eu não sei que está trabalhando por fora. Finjo que não vejo, pois não posso cobrar-lhes exclusividade. Ele passou a ser o meu principal suspeito nesse caso dos desaparecimentos dos moradores de rua. Estou dando corda e, na primeira oportunidade, pego ele com a mão na massa. Vai ser duro, porém tenho que cumprir a lei. É o meu dever. Também tenho na minha alça de mira o Argemiro.
Duas semanas com os homens nas ruas, várias prisões e nada de concreto. Estou convencido que isso é obra do Renato e do Argemiro. Hoje o agente Renato passou o dia sonolento e o Argemiro nem deu as caras. É hora de agir. Vou eu mesmo investigar esses dois, paciência tem limite.
Tomei a decisão e tratei de agir: coloquei um chip no carro que Renato usa e à noite o rastreei. Vi o seu carro estacionado, me coloquei à distância e aguardei uma ação da parte dele. Por horas permaneceu dentro do carro. Estava fazendo campana. Eu, ironicamente, também o fazia e, o que era pior, em um dos meus agentes. A espera parecia estar no seu final. Ele entrou na casa que estivera vigiando, logo que saiu um sujeito de terno, certamente o proprietário, que passou perto do meu carro, em direção ao centro velho. Aguardei. O agente Renato não estava a trabalho, agia por conta própria e ali tinha alguma coisa. Não me restava outra coisa a não ser esperar.
Quando ele saiu, curvou-se sobre o carro. Estava sentindo alguma coisa; hora de colocar um final naquilo. Liguei meu veículo e parei ao lado do dele. Iria arrancar a verdade, acabar de vez com aquela história. Desci e ele assustou-se ao ver que era eu. Notei que vomitara e nem precisei apertá-lo. Contou o que estivera fazendo bem como o que descobrira. Voltamos para a delegacia e ao amanhecer, tínhamos mais de vinte homens em ação.
Fiquei aliviado, de verdade, em saber que meu agente descobrira o responsável por todos aqueles desaparecimentos de moradores de rua. No porão da casa foram encontrados dezenove corpos enterrados. O assassino vai ser apresentado logo mais à imprensa e, acho que devo fazer justiça. Vou indicar Renato para uma promoção. Ele merece. Mas, a entrevista coletiva, essa é minha. Também mereço.

2 comentários:

Cássia disse...

Oi, Manassan. Gostei da sua narrativa. Tres histórias paralelas que acabam se entrecuzando. Daria para ter desenvolvê-las em romance, hem, talvez privilegiando mais a narrativa de fatos do que propriamene o tom um pouco dissertativo. O que ahca? Muito bom.

Osair de Sousa Manassan disse...

É uma ideia a se pensar, Cássia. O tom dissertativo seria por parte ser narrado na primeira pessoal?
Obrigado pela análise crítica!

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