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26 de jan de 2012

OUTONO DA VIDA

[Conto]

O sol mal lançara suas primeiras luzes de tonalidades róseas sobre a cidade quando Helena desceu para preparar o café da manhã, como sempre fazia, numa rotina automatizada pelo tempo. Celso permanecia na cama. Acordara com os barulhos da esposa abrindo gavetas e portas de armários. Sem motivo aparente, ele fingiu ainda dormir. Ouviu os seus passos que desciam a escada; lembrou-se que era sábado, dia de irem para o sítio.
Notou uma quase melancolia em si, um sentimento incerto, mais próximo da tristeza. Era dia de toda família viajar para a antiga propriedade que fora dos avós de Helena. Lá permaneciam até o domingo à tarde. A viagem de volta era sempre lenta, com a esposa ao volante que, no entender de Celso, tinha uma excessiva cautela ao volante. Aborrecia-se com a volta, num trajeto de duas horas transformado em três, ou um pouco mais.
Abriu os olhos no quarto ainda escuro devido ao horário e pela cortina fechada. A melancolia mostrava-se mais definida, como o prenúncio da partida definitiva de alguém muito querido. Pensou que talvez fosse pela proximidade do seu aniversário de quarenta anos, como acontecera nos dois últimos. “A crise tão falada... Mas não, não pode ser por isso...” Havia outra causa, considerando que não era um sentimento contínuo, ao contrário, essa tristeza vinha-lhe raramente. Nos últimos tempos sentira esse mesmo mal-estar por duas ou três vezes. Nada mais.
Novamente os passos de Helena. Agora subia as escadas; em seguida, o barulho da porta do quarto das filhas. Ouviu nitidamente a sua voz acordando Júlia e depois,  Joyce. 

Passos, outra porta abriu-se. Acordava, agora, Francisco. Celso sabia ser o próximo. A esposa animava-se mais nas manhãs de sábado do que nos outros dias. Era-lhe inconcebível qualquer final de semana que não fosse no sítio. Deitado de costas, o olhar perdido no teto, tentou lembrar-se de um único sábado em que dormira além do costume, ou de um domingo em que contemplara a tarde tornar-se noite na tranquilidade de sua casa. Não se lembrou. Não havia o que se lembrar. Há quinze anos repetiam aquele rito.
De repente deu-se conta que a melancolia era causada pele certeza daqueles dois dias serem iguais a tantos outros, inumeráveis, em repetições que lhe pareciam eternas. Havia uma imutabilidade nessa vida em família, repleta de fazer sempre igual, sem inseguranças, totalmente previsível. E agora já não tinha dúvida: esse desânimo advinha da extensão de mesmices, pelas maçantes obviedades.
Helena entrou no quarto, abriu a cortina e o chamou. “Estamos em cima da hora”, disse. Que se levantasse e fosse tomar o seu banho, fazer a barba e descer para tomar o café da manhã. Hoje, se não se apressassem, poderiam atrasar. A voz chegava ao seu ouvido e era sentenciosa, o “atrasar” como algo imperdoável, um fugir da responsabilidade de uma tradição sagrada, uma desatenção à hora de um ofício.
Celso levantou-se, tomou o seu banho, mas não fez a barba. Desceu para tomar o café com a mesma indisposição do acordar. O mal-estar trouxe uma ligeira irritação e achou que a algazarra diária dos filhos à mesa, era maior a cada dia. A alegria dos três era uma antecipação da liberdade do campo, do correr sem receios pela amplidão de um horizonte sem perigos. Ele entendia isso, mas hoje não amanhecera como um dia normal. Algum fantasma o visitara na madrugada e lhe trouxera a dúvida, a incerteza que nos faz vacilar em seguir adiante.
Helena perguntou-lhe por que não fez a barba. Respondeu perguntando: “ora, por que tinha que fazer?”
“Porque sempre faz!”
“Nada pode sair do imprevisto no roteiro dela”, pensou Celso. Fechou a expressão e se aborreceu ainda mais. Julgou que a esposa tinha receios do improvável. Subitamente lhe veio o desejo de não ir ao sítio. Um desejo tímido que foi crescendo em seu pensamento, ocupando o espaço do vozeio das crianças e a de Helena, apresando-os.
“Devo, mesmo, ir?”, questionou-se. Eram todos uma família, agiam como se era esperado que agisse uma família, com união e comunhão. E o que era comunhão senão a participação em comum de crenças, interesses e ideias? E o que era a sua melancolia? O desinteresse, a sensação do fastio da mesmice? Se fosse assim, por que deveria ir? Helena o chamava. Em seu rosto viu descontentamento, viu incriminação; “já estamos atrasados!”.
Os filhos ocuparam rapidamente os seus lugares dentro do carro, na mesma e alegre algazarra. Ele, sentado, colocou as mãos sobre a cabeça, apoiando o cotovelo na mesa. “Eu não vou...”, ouviu-se dizer de forma surda, ensimesmada. Helena perguntou-lhe o que dissera e, sem esperar resposta, repetiu que “já estamos atrasados, Celso”.
Aprumou-se e a voz lhe veio firme, decidida. “Hoje não vou. Quero ficar em casa”. Espanto, raiva, incompreensão do sentido de suas palavras? Não suportou continuar olhando para Helena. Via os arabescos dos azulejos da cozinha, tão conhecidos, tão monótonos.
“Que história é essa, agora, Celso? Como assim, não vou? Anda, criatura, as crianças estão esperando e me deixando maluca!”. Não foi o suficiente para arrefecer a sua decisão abrupta.
“Então vai, Helena. Diz a eles que vou ficar em casa... Quero arrumar os livros na biblioteca, ficar sozinho...”. Helena transtornou-se. Questionou, cobrou, exigiu. Celso deixou-a falando sozinha e subiu para o quarto. Postou-se ao lado da janela, com um vazio que só não era total devido à angústia.
A perna de apoio começava a doer-lhe. Não soube quanto tempo ficou ali. Viu o carro partir, portas comerciais se abrindo, as pessoas ocupando as calçadas, um carrinho de bebê empurrado por uma sorridente mãe, viu o seu passado e a inutilidade do agora. Voltou-se e largou o corpo na cama. Cobriu os olhos com uma toalha e isolou-se da claridade e da vida externa.
Adormeceu e sonhou. Estava na estrada e de repente o carro ficou instável, deslizando as rodas sem sair do lugar. Eram fezes de vacas e cavalos. Eles pastavam e defecavam sobre a pista e o volume aumentava assustadoramente, fechando a passagem. Ansioso percebia o estrume vir em direção ao carro e, em desespero, deu marcha à ré e o veículo deslizou velozmente para trás. Pisou no freio, mas a velocidade só aumentava. Havia muitos veículos na sua retaguarda e se pôs a ziguezaguear, numa incômoda posição, o pescoço virado para trás, assustado, desviando de batidas eminentes. O freio não obedecia à pisada forte do seu pé. E voltava, interminavelmente.
Após acordar, pensou no sonho bizarro, tentando descobrir um sentido oculto. Lembrou-se que estava sozinho naquele devaneio onírico. Disse a si mesmo que sonhos não têm explicação. Segredos do inconsciente, portanto, bobagem perder tempo tentando entendê-los. Olhou para o relógio e viu que tinha dormido por quase três horas. Levantou-se e saiu para a rua.
Caminhou sem pressa. Logo estava no parque municipal, com seus refrescantes bosques e um grande lago. Há tempos não ia ali, apesar de morar menos de dez minutos de caminhada até o local. O sol já estava alto e era pequeno o número de pessoas fazendo seus rotineiros exercícios aeróbicos. Sob as árvores, sentados na grama, casais de namorados e algumas crianças correndo atrás de pombos. Comprou água de coco e entrou no bosque à procura de um banco para se sentar e beber o líquido refrescante. Olhou para o lago e se perdeu numa introspecção que oscilava no feitio da água, sob a circulação de uma família de patos, de um lado a outro.
Uma sólida trajetória, construindo toda uma vida, com determinação desobrigada ao que não fosse à família e ao trabalho. Nunca parara um segundo sequer se era mesmo isso que desejava para si. E era? “É essa vida que quero para mim?, a vida que escolhi ou eu é que fui escolhido por ela?”, meditava ainda em angústia. “Se tivesse procurado outros interesses, como seria eu? O que existe além do que conheço, desta vida ordinária, corriqueira?”.
Depositou o coco vazio numa lixeira. Viu passar à sua frente dois homens abraçados. Um gargalhava com alguma história que o outro contava, entre risadas e trejeitos. “Gays... Quanta coragem, a certeza do que desejam para si, lutando diariamente contra o preconceito, a discriminação e, felizes!”. Sentiu-se envergonhado de si mesmo. “Talvez seja isso mesmo, o medo do novo, do inusitado...”
Depois de casado não teve outra mulher, não teve mais a companhia dos amigos em uma mesa de bar, divertindo-se com bobagens, dando boas risadas. Quinze anos rotineiros, seguros, previsíveis. Nenhuma nova emoção, nenhuma regra quebrada, a metodologia do casamento perfeito. “Qual a alegria de um casamento assim? Qual é o deleite recompensador?” Não houve desprazer, como não houve delícias, encantos. Agora, sim. Agora um desencanto repentino... “Qual o estopim que detonara esse despertar de insatisfação? Um sonho, talvez? Ou a falta deles?”
O último sonho que se lembrava fora o dessa manhã, mas fora “um sonho de merda, literalmente”. Levantou-se. Não queria pensar no que lhe parecia inexoravelmente perdido. Era a vida que tinha, fosse da sua escolha ou não. Caminhou em volta do lago e sentiu fome. Voltou sem pressa para casa, já um pouco melhor. Precisava de solidão e a estava conseguindo. Mas não era a solidão do estar consigo mesmo, era uma necessidade de se afastar de Helena, das crianças; enxergar a vida sem interferências do grupo familiar.
Fez um lanche reforçado, ao seu modo, ao seu sabor. Nem o degustou, pois havia voracidade e satisfez-se, finalizando com um suco de laranja. Voltou ao quarto e tomou outro banho. O dia estava quente e a caminhada o estafara. Vestiu uma bermuda azul e uma camiseta lisa, branca. A cama lhe parecia convidativa. Deitado, procurou não pensar e assim, adormeceu. Desta vez não teve sonho. Acordou perto das quatro da tarde. Pensou em ir ao cinema, “talvez na sessão das dezenove horas”. Dirigiu-se à biblioteca da casa e escolheu um livro a esmo. Folheou suas páginas displicentemente. Recolocou-o na estante. Analisou lombadas e deparou-se com um exemplar dos “Sermões da Sexagésima” do padre Antônio Vieira. Abriu uma página ao acaso e leu:
“Dá-me grande exemplo o semeador, porque, depois de perder a primeira, a segunda e a terceira parte do trigo, aproveitou a quarta e última, e colheu dela muito fruto. Já que se perderam as três partes da vida, já que uma parte da idade a levaram os espinhos; já que outra parte a levaram as pedras; já que outra parte a levaram os caminhos, e tantos caminhos, esta quarta e última parte, este último quartel da vida, porque se perderá também? Porque não dará fruto? Porque não terão também os anos o que têm o ano? O ano tem tempo para as flores e tempo para os frutos. Porque não terá também o seu Outono a vida?...”
Sorriu intimamente. Era o outono da sua vida? Deixou o livro sobre a mesa e acessou a internet. Leu notícias, abriu a caixa de e-mails, leu e respondeu alguns e distraiu-se em páginas de fotos. Era um hobby que abandonara. Quem sabe pudesse voltar a fazê-lo? Registrar momentos únicos, que jamais se repetirão... A tentação era grande. Talvez voltasse mesmo a fotografar, mas precisava de um bom equipamento.
Por volta das dezoito horas, desligou o computador e foi caminhando até ao shopping. Marcou no relógio: vinte e dois minutos. Olhou a programação de filmes e escolheu “Intrigas de Estado” do inglês Kevin Macdonald. Envolveu-se na trama e gostou, em especial, do desempenho do ator Russell Crowe. A atenção no filme foi tirada por um rapaz que veio se sentar ao seu lado. Reparou que devia ter por volta dos vinte anos, embora a penumbra pudesse dissimular as feições. Celso tentou se concentrar novamente no enredo, mas sentiu o rapaz ajeitar-se na cadeira e quase tocá-lo com o ombro. Notou que estava sendo observado e sentiu um misto de desconforto e curiosidade.  
Desviou o olhar e com o extremo do seu campo de visão, percebeu que o jovem, realmente o observava. Ao ter certeza, ajeitou-se melhor na poltrona, tentando manter uma distância maior do rapaz. O filme se encaminhava para o final quando sentiu uma mão sobre sua perna. Olhou para o ocupante da poltrona vizinha, disposto a dar-lhe um soco, mas conteve-se murmurando, “tira sua mão, por favor!” Não foi obedecido e, ao contrário do que pretendia, sentiu um frio no estômago, uma sensação já esquecida. Respirou fundo e levantou-se. Saiu do cinema e caminhou rapidamente para a rua em direção à sua casa.
Celso tinha a cena na cabeça, a lembrança da sensação que aquele toque atrevido lhe provocara. Diminuiu o ritmo dos passos e voltou o olhar para trás. O jovem o acompanhava à distância. Continuou a caminhada, desta vez sem se voltar. Ao chegar ao portão da residência, olhou e o viu na calçada, a poucos passos de onde estava. Entrou na casa deixando o portão e a porta encostados. Sentou-se na sala sentindo a respiração ofegante pelo esforço da caminhada.
De frente para a porta, viu quando ela foi aberta e o rosto juvenil surgir na fresta. Era mais jovem do que imaginara. Não chegara aos vinte anos e tinha um olhar calmo e atento. Ficou calado observando-o se aproximar. Parou a poucos passos de Celso, sem tirá-lo dos olhos. Era de altura mediana, vestia roupas adequadas à idade, com jeans e tênis. “Oi...”, arriscou-se a cumprimentar. O olhar de Celso era avaliativo e respondeu ao cumprimento com a indagação: “quem é você, como se chama?”
“Jaime... E você?”, perguntou ainda de pé, esperando um convite para se sentar. Celso não sabia o que acontecia, por qual motivo deixara um estranho entrar ali. Estranhamente, não estava achando ruim e havia certo prazer na constatação de ter sua residência violada, invadida. A sua residência, a sua privacidade exposta a um estranho.
“Celso... Meu nome...”, indicou uma poltrona com a mão e Jaime se sentou. Ofereceu uma bebida, ele aceitou uísque. Celso foi ao pequeno bar na sala de estar e preparou dois drinques. Ao voltar viu o jovem examinando alguns quadros na parede. Entregou-lhe um copo, perguntado se gostava de pintura. “Não entendo nada...”, falou sorvendo um gole da bebida. “Mas penso que não é mesmo para entender, não é? Dizem que é para sentir, absorver...”. Celso ficou calado alguns instantes e depois perguntou o que ele sentia. “Nada”. Voltou-se e ficaram frente a frente. Havia, no entender de Celso, certa ironia no olhar daquele jovem, um “quê” de desprezo.
“O que deseja, afinal..., me seguindo?”, perguntou com dificuldade, sentindo desconforto com aquela proximidade.
“E o que pretende você, deixando a porta aberta para eu entrar?”, sorriu ao dizer estas palavras e Celso achou que era um belo sorriso. Sem retrucar, voltou-se e foi para a poltrona onde estivera sentado. Antes de se acomodar, sentiu a mão de Jaime em seu ombro, puxando-o. Novamente aquele frio, o coração a ganhar outro ritmo. “Eu quero emoção..., e você?”.
Celso não respondeu de imediato, estavam muito próximos e um suor frio no corpo acompanhou as pernas que fraquejavam. “Não sei o que quero... Talvez, apenas conversar... Podemos conversar?”. Jaime entortou a cabeça, analisando sua face, onde passou a mão suavemente.
 Celso não entendia a si mesmo, muito menos aqueles sintomas de ansiedade adolescente há muito esquecidos. Não se distinguia como homem, nem a Jaime. Entretanto, também não eram assexuados. Eram dois seres e em seu corpo, sensações renovadas, diferentes no tempo, mas de um prazer intenso. Poderia beijar Jaime, naquela hora, como algo natural, sem culpas. Caiu sentado na poltrona e pediu ao rapaz que se sentasse também. Virou o uísque e perguntou se Jaime aceitava outro. Não aceitou. Aquele ainda estava pelo meio.
“O que está havendo comigo? Enlouqueci? Droga!, quero estas emoções, mas não quero pecar... Eu preciso pecar para retemperar a vida? Tenho ainda esperanças, ou ao menos direito a elas?” Pôs uma dose dupla de uísque enquanto pensava. “Minha vida ainda pode ser refeita? Posso ainda fazer escolhas, fugir da previsibilidade, saborear novas emoções... Outros corpos?”. Bebeu um grande gole e notou que a sua angústia agora era outra, advinda de uma urgência interior de uma decisão e enveredar, ou não, por um caminho que lhe era estranho, contudo prazeroso.
Debruçado no balcão, sentiu os braços de Jaime envolver-lhe pela cintura e encostar o corpo no seu. “Deus... Gostoso”, uma curiosa excitação lhe invadia. Mais um pouco e a emoção decidiria em lugar da sua razão já abalada. Veio uma vontade de chorar. E viu Helena assistindo aquela cena e teve vergonha. As crianças também viam com olhares reprovadores, seu corpo reagir às carícias de Jaime. Disse “não... Não quero isso...”
“Você quer, meu caro... Você quer, mas está acovardado. Com medo de gostar e gostando, querer mais e mais.”
“Não, você está enganado! Eu não quero e jamais iria gostar... Vá embora, por favor...” Sentiu-se no seu limite. Celso não se percebeu gritar ao mesmo tempo em que empurrara Jaime, jogando-o sobre o carpete azul. Ao levantar-se, viu seu agressor subir as escadas quase a correr. Ficou meditativo e, decidido, seguiu na mesma direção. Abriu a porta do primeiro quarto e ouviu barulho de porta de armário no outro aposento. Foi até lá e viu tudo na penumbra. A silhueta de Celso ao lado de uma cama de casal.
“Hum... O local perfeito!”, disse com ironia.
“Veste isso!”, Celso mostrou a ele uma calcinha de sua esposa. Havia desafio no tom da sua voz.
“Isso não vai me transformar numa fêmea, gostoso... E não é isso o que você quer...”
“Como pode saber o que eu quero, seu viadinho imbecil? Olhe pro seu rosto adolescente e veja se sabe alguma coisa da vida! Cê não sabe nada, garoto! Não sabe o valor de um casamento feliz.... De uma mulher que te ama e está sempre ao seu lado, haja o que houver... Não sabe nada, nem mesmo o que é sexo verdadeiro!... Sexo sadio!...” Sem perceber, Celso gritava, falando sem pausas, com um receio imperceptível de perder o sentido de suas próprias palavras. Como resposta e com o intuito de fazê-lo calar, Jaime o puxou para si e colou suas bocas.
Por instantes achou que Celso cedera, porém se sentiu empurrado novamente; desta vez não caiu e tentou resistir e quebrar a resistência daquele homem que lhe era charmoso e vivido. Uma mistura agradável. Tentativa vã, pois ele lhe escapou e desceu correndo a escada, sentindo o corpo retesado, rebelando-se contra seu desejo insatisfeito. Na sala, andou de um lado a outro e viu o jovem descer devagar e com um sorriso no rosto. “Ele é um belo rapaz... Podia... Ah, se fosse uma garota... Se fosse, teria o mesmo desejo? É seguro de si... Quer saber o que eu mesmo não sei sobre meus sentimentos...” O pensamento confuso foi abortado pelo hálito suave junto ao seu rosto.
De repente, Celso se viu em desespero. Perdera-se de si mesmo. E via como estivesse fora de seu corpo, a chutar o rapaz que derrubara com um soco instintivo. Jaime, caído, tentava se defender com as mãos sobre a cabeça dos chutes intermináveis. O homem chutava-lhe e gritava sons sem significados; eram gritos de desespero, prazer e raiva, gritos de ódio e glória.
Quando se sentiu cansado de chutar o rapaz, levantou-o e pôs-se a socá-lo, e via, com satisfação no olhar, a sua própria imagem. Jaime caía sobre móveis e, ao se levantar, era jogado sobre outros objetos da casa, de encontro a paredes, aparadores, quebrando com o choque diversas louças e cristais. Quando conseguiu se esquivar, saiu cambaleante pela porta por onde entrara, respingando sangue pelo piso.
Celso percebia seus gritos misturarem a um choro que iniciara manso e tornava-se profundo. Saiu correndo escada acima e em meio à abundância de lágrimas, chorava com uma intensidade que assustava a si mesmo. Era uma criança novamente. O brinquedo quebrado; a alegria fora amordaçada. Devagar, em soluços que tentava conter, desceu à biblioteca e deitou no divã de leitura. Estava exausto, sem força para raciocinar. Cochilou, depois de algum tempo.
Ao abrir os olhos, tentou não pensar no que acontecera há pouco. Alcançou com a mão o livro que havia deixado sobre a mesa. O livro do Padre Vieira. Estava aberto na mesma página de antes. Percorreu os olhos, marejados, pelas últimas linhas.
“As flores, umas caem, outras secam, outras murcham, outras levam o vento; aquelas poucas que se pegam ao tronco e se convertem em fruto, só essas são as venturosas, só essas são as que aproveitam, só essas são as que sustentam o Mundo”.
Deixou o livro cair sobre o piso. Sentiu o peso da solidão a oprimir-lhe o peito enquanto aceitava que uma lágrima escapasse pela face cansada.

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