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29 de fev de 2012

AUTO DOS DESENCANTOS


Osair Manassan

Passou a noite observando o movimento no pátio. Contou cinco caminhões estacionados; passariam a noite ali. Vários carros menores e motocicletas chegavam e partiam, ficando o tempo suficiente para abastecerem. O rapaz que tomava conta das bombas de combustíveis tinha a cara sonolenta e um andar preguiçoso. Concentrou-se nas duas mulheres que chegaram, pintadas e alegres. Sumiram dentro da lanchonete do posto. Pouco depois a primeira veio agarrada ao braço de um caminhoneiro; abriu a porta do veículo, ajudou-a a subir na cabine e entrou atrás. Só saiu de lá nos primeiros raios de sol. A outra, mais nova, ficou rondando um bom tempo até que o homem de um outro caminhão, com voz carregada no sotaque gaúcho, pos a cabeça pela janela da porta e puxou conversa com ela. Minutos depois também subiu e se embrenhou lá dentro. Cortinas de pano os isolaram ali dentro e o silêncio voltou a tomar conta do lugar.
Sentada, com uma pequena trouxa no colo, pensou nas mulheres e nos homens, o que estariam fazendo. Melhor esquecer, descansar-se de tanta coisa que diuturnamente lhe vinha à mente. Debruçou-se sobre os braços, apoiados nos joelhos, na espera de adormecer; assim não refletiria sobre a vida. Recordar doia demasiado. Embora não quisesse ter em sua nova realidade tão massacrantes recordações, elas invadiam-lhe o espírito, alheias à sua própria vontade, causando desassossego. Eram inclementes. Tudo o que vivera desde os nove anos era-lhe pecado, por isso se sentia mal consigo mesma. Às vezes chorava. Um choro escondido e incontido. As lágrimas tinham como força motora esse breve passado e se expeliam olhos afora, numa pressa de deixar os pequenos olhos cansados. As lembranças indesejadas mostravam-se infinitas nas mágoas que traziam em si e arranhavam as feridas não cicatrizadas da alma.
No final do mês faria aniversário. Feliz aniversário? O que é felicidade, essa palavra tão bonita? Quinze anos. E já estava esgotada, sem alento, sem viço. Vivera cem anos, não quinze. A aparência é enganosa como o são as pessoas. Cem anos de vida em quinze. Era o seu sentimento, a sua miséria interior somada à miséria do mundo que até agora tivera a oportunidade de conhecer. Alguma vez emitira um sorriso espontâneo? Em algum momento da sua pouca longa vida, recebera um afago afetuoso? Afeto, estranha palavra que lhe parecia vazia de compaixão.
Mudaria alguma coisa agora que estava prestes a se mudar de lugar? Os homens do sertão de Pernambuco não seriam diferentes dos homens de São Paulo. Já percebera isso nos olhares, nas insinuações e até nos gestos que lhe faziam tentando aparentar inocência. Notara a sandice imoral a vasculhar seu corpo adolescente e desnutrido. Os olhares invasivos lhe davam um asco indisfarçável. Tantas vezes já vira aquele olhar em tantos olhos que sabia tudo o que eles lhes diziam. Tinha conhecimento do que desejavam, a babar como animais famintos - cães sem dono a enxergar comida.
Acordou de um sono superficial. O dia já se insinuava nos primeiros claros róseos do horizonte. Uma a uma, as duas mulheres saíram trôpegas do interior das cabines e foram embora. Seguiu-se um ritual dos homens que dirigiam aqueles caminhões: rumo ao banheiro, vestidos com bermudas e camisetas amarrotadas; de volta à cabine; descem com roupas de melhor aparência, vão à cantina e tomam café reforçado. Um após o outro voltavam. Rádios ligados, músicas, notícias, outro frentista. Outro dia.
O corpo lhe doi pelas horas em má posição. Estica-se e vagarosamente segue rumo ao estacionamento. Olha para os caminhões e aproxima-se do que estava mais próximo de onde estivera. Lê a placa. Repete o procedimento nos outros quatro. O som de um motor faz com que se volte com o olhar. Era o caminhão do sujeito com sotaque gaúcho. Observa cada um dos veículos distraidamente e se assusta com a voz que se dirige a ela.
“Tá querendo dar o fora, menina?”
Olha o homem. É feio, de fala baixa e olhar avaliador.
“Vou pro sul... São Paulo.”
Agora, sem a mãe por perto, ela se sentia livre, desobrigada. Estava decidida a ir para longe dali. Ninguém iria forçá-la a fazer aquilo... Preferia morrer. E morrer seria não recordar, não fazer nada, não ver nada. Somente um sono profundo do qual não se acorda mais. “Morrer não deveria ser tão ruim como essa vida desgraçada, suja e cheia de maldades...” Sabia que era pecado pensar estas coisas, mas de pecados já estava cheia, entulhada deles. Nada mais receava além da possibilidade de ser levada, mais uma vez, a ser objeto da imundície humana. Isso nunca mais. Achara bom quando a mãe fora atropelada na rodovia, embora a ideia de liberdade total, de fazer o que bem entendesse consigo mesma a deixasse confusa, sem direção. 
Parada em frente ao caminhoneiro, viu que realmente devia partir. Entrou no caminhão e logo estavam na rodovia. Não olhou para trás, não deixara nada que lhe fosse de algum proveito. Distraía-se com o movimento na estrada. Tanta gente, tantos carros! Gentes de todo tipo, sem-nomes, sem-rostos, a cruzarem com o veículo que a levava para longe de toda ruindade. O motorista perguntou seu nome. Perguntou depois a idade - um monte de outras perguntas. Ele falava o tempo todo, era curioso, ela observou. Tentou tirar um cochilo. Aos poucos todo aquele barulhento tráfego silenciou-se.
Estava escuro, um par de faróis chamou sua atenção e o coração apertou-lhe dentro do peito. Era o carro esperado trazendo poeira e um velho bigodudo de sorriso amarelado ao volante. Eram todos velhos e talvez velhice fosse doença que se pega feito resfriado. Por isso se sentia com cem anos. Velhos decrépitos, porcos ao volante de suas velhas pocilgas... E a mãe. Sabia o que ela lhe diria a seguir, todavia esperava como sempre acontece quando se tem esperanças que daquela vez ela não lhe desse a ordem de ir. A esperança morreu e não se lembra bem em que ocasião. Esperança era um consolo que durava tão pouco, diante do martírio diário, que a sepultou ainda em vida.
"Teresinha, tu tá esperando o quê, diacho! Vá logo, vá, que o moço num tem a noite toda, não!..." Então ia, num andar lento, os passos forçados pela necessidade. Avançava em direção ao veículo estacionado atrás do posto de combustíveis. A mãe, de longe, observando, nervosa. Havia bocas ávidas por alimentos, estômagos vazios a rechear com um pouquinho de nada. E havia velhos encardidos querendo meninas que lhes custassem pouco, na satisfação de suas ânsias dementes.
Sentava-se no banco do carona e o velho sorria exalando cheiro de cachaça e cigarro barato. Pegava em sua coxa de criança enquanto punha pra fora “aquele troço mole e nojento”. Subia a mão áspera e tocava o seu sexo, e ele, ávido, retirando a calcinha de forma desajeitada, com uma só mão. A outra segurava e sacudia “a coisa abananada” que ia endurecendo. Ela sentia nojo, mas ficava quieta, enrijecida de corpo e alma, enquanto ele se mexia, ruminava sons ininteligíveis e espasmódicos.
Ele lhe dizia coisas sujas, nomes feios e ainda a chamava de "meu benzinho", "queridinha do papai", "minha filhinha"... Dizia e fungava, as mãos grandes machucavam, apertando seu corpo franzino, procurando carnes onde não havia. A tortura daqueles momentos parecia durar horas e ainda tinha aqueles que lhe ordenavam que pegasse “naquilo”. Dizer não, dizia, contudo recebia ameaças e tapas. E os viam morrer, sem que morressem, era somente o anúncio de um final provisório que só acabava quando “aquela coisa esquisita” que ele chamava de "cacete", expelia uma gosma branca... Quanto nojo, meu Deus! Nunca acostumou nem se acostumaria.
“Acorda, menina! Vamo passá a noite aqui...”
Ele era uma pessoa de bem. Pagou o jantar dos dois e bebeu muita cerveja e conversou o tempo todo. Ela bebeu água e não pediu nada. Ele comprou-lhe chocolates. Voltaram ao caminhão e foram dormir. Ficou acordada sem sono e o ronco do motorista era estranho e alto.
As dolorosas lembranças vieram de supetão. Entregava o dinheiro para a mãe e voltavam em direção ao casebre de pau a pique em que moravam, sob o som dos próprios passos arrastados. Lá se fora mais um dos incontáveis carrascos indecentes. Lá se fora mais uma noite de tortura e desencanto. Ninguém dizia nada. Nem ela nem a mãe. Caladas, com o receio de revelar a dor que cada uma trazia na alma ao pronunciar um som que fosse. A brisa noturna era irrespirável, sufocante. Nada diziam. Ela, nada ouvia ensimesmada com a própria dor e um estranho nojo de si mesma.
Ao entrar, encontrava Francisco dormindo e deitava-se ao seu lado. A mãe acendia um cigarro e ia fumar no quintal. Ali ficava por horas olhando para o alto, para o céu de onde nada caía. Alisava a cabeça do irmão sentindo a maciez do seu cabelo encaracolado e experimentava um prenúncio de prazer em sua tristeza. Era por ele, só por ele que obedecia à mãe. Por ele. Era tão bom poder ficar ao lado daquela criança frágil, a sua única alegria nessa vida de meu Deus. Com Francisco podia conversar à vontade, contar todos os seus medos e tristezas. Ele não entendia, mas era bom assim mesmo e pelo jeito que a olhava, talvez até entendesse. Não seria certo revelar-lhe tudo, atormentar a sua inocência e manchar a sua beleza.
No ano seguinte, aquela alegria lhe foi roubada de modo sádico. Não sabe que doença maldita levou seu pequeno irmão. O padre falou que fora a desnutrição... Não perguntou o que significava, "que diacho de palavra era aquela...". Ele, tão alegre quanto frágil, um menino mirrado que mal conseguia correr, com cinco anos e uma aparência de três. “Onde Deus mora? Muito longe daqui?”. Chorou profundamente. Chorou pelo irmão, por si, pela sina de um viver cheio de tristezas e, agora, sem nenhuma alegria.
Acordou assustada com o caminhoneiro tentando arrancar-lhe as roupas. Gritou “não! Para com isso! Para!...”
“Tu tem que pagar a viagem, sua putinha... Achou que ia de graça, comendo e bebendo às minhas custas? Vagabunda! Vem cá... Seja boazinha... Isso!”
Deixou o norte para plantar sonhos no sul. Experimentou um breve renascer da esperança. Esperança pouca, de um olhar honesto, de uma palavra de carinho. Não obstante, na idade em que fora alçada, compreendeu por fim, não se alimenta o futuro por não existir senão o agora. E o agora, dentro de um caminhão e debaixo de um céu escuro, sem estrelas, já não pensava em nada. Olhava para o homem sangrado, sem piedade. Com satisfação mórbida, deitou-se para adormecer e não existir.

Um comentário:

Aninha The Best disse...

Isso é uma realidade não só da região nordeste mas também, da região norte.
Um absurdo que causa nojo em pessoas conscientes que o ser humano possui instinto animalesco e, pouco amor ao próximo, principalmente, se o próximo for uma criança do sexo feminino.
Muito bom seu conto como sempre.

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