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1 de fev de 2012

O NETO DE NANÃ

Nasci com todas as prerrogativas para dar errado na vida. Todas, não, algumas adquiri com o tempo. Mas a princípio era assim: negro, favelado, feio, sem pai conhecido e mãe umbandista. Depois, já na juventude, acrescente: semi-alfabetizado, assaltante com ficha policial extensa, homossexual, órfão e favelado como antes; o que mudou um pouco foi a aparência. O tempo consertou algumas coisas e até fiquei simpático.
A princípio diziam que não chegaria à adolescência e cheguei para a tristeza geral, menos de minha mãe, pela fé de que eu era filho de Oxumarê. Eu não tinha pai, mas tinha um orixá como padrasto, que é filho de Oxalá e Nanã. Oxumarê representa o feminino e o masculino ao mesmo tempo, daí eu achar muito natural a minha opção sexual. Em sua homenagem, minha mãe colocou-me o nome de Bartolomeu, que é sua representação cristã. Quem não me viu passar da adolescência para a fase adulta, foi a minha mãe. Antes de morrer, de uma pneumonia, me deu um colar de quartzo rosa que é meu amuleto e desde então, não o tirei do pescoço.
Sozinho, sem ninguém no mundo, cheguei aos vinte e dois anos de idade, repleto de saúde e cuspi em todos que achavam que eu não completaria a maioridade. Fui deixando a feiura para trás e tornei-me um negro...
de uma beleza simples, porém exótica, no entanto, com todos os atributos já citados, fadado a ser um zé-ninguém na vida. Eu já me conformara com essa sina. E como tal, cresci, sob o signo da desconfiança, do preconceito, segregado em meio aos membros da mesma comunidade.
Tinha que me virar, procurar meu lugar no mundo, porém não havia lugar para mim. Se ainda me encontrava por aqui, agradeço ao meu pai Oxumarê, que me deu astúcia.
Como é comum acontecer, muito cedo descobri a minha homossexualidade. Só não foi comum a circunstância em que ela se mostrou a mim, como opção sexual. Apesar de procurar viver em harmonia com todos, ninguém parecia querer se harmonizar comigo. E se alguém me ofendia, me segurava, no entanto o mais certo é que eu partisse para a briga. Não aceitava desaforos e como eram em abundância, vivia brigando com a molecada da favela. Destemido e forte para os meus treze anos, jogava capoeira muito bem e quem me ensinou foi o mestre Saul, famoso capoeirista fazia trabalhos sociais com as crianças da comunidade.
Cansados de me insultar e apanhar, três adolescentes, que trabalhavam para o tráfico, surpreenderam-me num beco escuro, bateram em minha cabeça com algo muito duro, do contrário eu não cairia desacordado. Acordei minutos depois e vi minhas mãos amarradas com uma corda de sisal, presa a um poste de madeira. Estava nu e dois dos rapazes seguravam as minhas pernas abertas enquanto o terceiro me estuprava. Fizeram um rodízio e, após toda essa violência, me levaram até um barraco no alto do morro e me deixaram ali, entre zombarias e chutes pelo corpo. Apesar de todo dolorido, consegui desatar a corda usando os dentes fortes que a Oxumarê me deu, improvisei uma roupa com alguns trapos de panos que havia lá e cheguei à minha casa ao amanhecer.
Contrariando a intenção dos pequenos marginais, eu havia gostado de ter sido comido pelos três. Sentira prazer em vários momentos e disfarcei. O que não gostara foi da forma covarde que me atacaram. Beijei meu amuleto de quartzo rosa e fui atrás deles. Um, deixei com os dois braços quebrados, outro ficou sem vários dentes e com as costelas partidas e o terceiro fugiu e fiquei sem vê-lo por duas semanas. Só voltei a encontrá-lo tarde demais — tinha sido morto pela polícia. Os outros dois deviam agradecer-me, pois o estado em que os deixei foi fundamental para a sobrevida de dois ou três anos que tiveram.
Nessa época eu já realizava pequenos roubos para garantir uma grana e comprar comida, roupas, tênis e outros itens menos essenciais. Um dia achei um revólver junto a um homem morto, com quem me deparara por acaso, no mato próximo do barraco em que morava com a minha mãe. Examinei a arma e não havia nenhuma bala detonada — era o mesmo que dizer que seu inimigo tinha menos munição agora. Com esse revólver, comecei a praticar meus primeiros assaltos. Agia sozinho. Primeiro por falta de amigos e, por último, assim era bem melhor, pois não havia necessidade de discutir táticas de abordagem e condução do assalto. As minhas ações tinham o que se poderia chamar de “ética de conduta”. Procurava não amedrontar as vítimas e nunca usar de violência. Como já disse, gosto de viver em harmonia com as pessoas.
Preso três vezes quando ainda era menor, cumpri minhas “medidas socioeducativas” em uma instalação do governo. Já adulto fui pego duas vezes. Uma por delação e outra por acaso. Ao todo, puxei dois anos de cadeia. Estas prisões me renderam certo respeito na favela, além de convites para ações com alguns assaltantes da região, recusados por mim. Preferia continuar autônomo. O pessoal do tráfico me ignorava e havia recíproca. Porém, não desgrudavam os olhos das minhas ações — penso que imaginavam que eu poderia ser-lhes útil no futuro. A verdade era que não admitiam iniciativas concorrentes e como nunca pretendi entrar para o ramo deles fui deixado em paz.
Com o fruto do meu “trabalho”, consegui transformar o barraco em uma casa com dois pisos e uma laje. Possuía móveis de qualidade e eletrodomésticos sempre atuais. Os filhos de Oxumarê são dotados de bom gosto e vaidade. Não iria, jamais, decepcionar meu pai. Saravá! Meu quarto era o maior cômodo da casa, abrigava uma cama king size, banheiro com uma jacuzzi deliciosa. O meu recanto de amor e de repouso.
Tive o meu primeiro namorado, sério, aos dezesseis anos. Era um cara do asfalto e ficamos juntos por seis meses até que o abandonei por causa dos seus ciúmes. Com a minha boa lábia, conseguia muitos “ficantes” e alguns namoricos e nada havia o que reclamar da minha vida sexual. O meu segundo namoro sério foi com Rômulo, um mulato belo, dois anos mais velho e cheio de tesão, repleto de sensualidade. Pela primeira vez me vi apaixonado de tal forma que só de ouvi-lo pronunciar o meu nome, sentia calafrios na espinha. Ele me chamava de Bartô. Adorava! Era técnico em informática e pretendia fazer curso superior. Eu o apoiava, pois se não estudara, ele teria essa oportunidade, no que dependesse de mim.
Amando, feliz da vida e “trabalhando” muito, com tudo para dar errado, de repente aconteceu de minha vida dar uma reviravolta total. Uma mudança tão radical quanto inacreditável. Só poderia ter sido obra de Oxumarê com a ajuda dos meus avós, Oxalá e Nanã.

No meu ramo de negócios tem sempre um policial querendo uma parte de tudo que a gente consegue com muito suor. No meu caso, um safado da delegacia de Furtos e Roubos estava sempre no pé. Um agente com pretensões a delegado e para isso estudava direito numa faculdade particular. Delciocrécio, esse era o seu nome — nada contra o mal gosto de seus pais, mas preferia chamá-lo de Del. Acho que todos o chamavam assim.
Um dia estava eu, tranquilo, fazendo a minha aposta corriqueira na mega-sena, na lotérica perto da favela, quando ele chegou. Perguntou com ironia se eu estava estudando o local para assaltar. O ignorei, continuando a marcar a minha aposta. Ele pegou uma cartela e copiou os meus números, exceto o último, o 47. Ou seja, não confiava nem nas minhas apostas e marcou o 50. Saímos da loja e ele me chamou até o carro. Disse que estava precisando de grana e me deu uma dica. Foi embora prometendo voltar para pegar o “seu dinheiro”.
Era assim que as coisas aconteciam: o policial dava a dica, o otário aqui fazia o serviço, a vítima dava queixa na delegacia e ele vinha pegar a sua parte. Fingia investigar e, algumas vezes, para dar a impressão de que trabalhava, prendia alguns batedores de carteira. Quando eu agia sem as suas indicações, aparecia puto da vida exigindo que lhe entregasse parte do volume arrecadado. Muitas vezes nem mesmo fora eu quem fizera o assalto. Mas ele acreditava? Claro que não.
A dica de Del naquele dia era uma barbada. Já tínhamos feito antes. Passou-me a informação olhando para os lados, como sempre, num ridículo jeito conspiratório. O dono de uma rede de motéis iria fazer uma retirada de duzentos mil reais, em espécie, para concretizar a compra de uma fazenda. O infeliz contratara o Del para acompanhá-lo e fazer a sua segurança e do dinheiro, óbvio. Ele acompanharia o carro do empresário de moto. O plano era que eu chegaria, também de moto, abordaria o homem no semáforo pela janela do carro e partiria com a maleta pelo meio do trânsito. O Del fingiria atirar, atirando numa direção distante de mim e me perseguiria. Essa parte, da perseguição, sempre era verdadeira, com evidente receio de não ver a sua fatia do bolo.
No dia seguinte, com o horário e itinerário em mente, fui trabalhar. Como tratado, depois de alguns minutos de espera vi o carro delatado sair da garagem do banco, seguido pela moto. Abaixei a viseira do capacete e fui atrás, mantendo uma distância segura, esperando o melhor momento. Agi como sempre, com discrição e firmeza delicada. O homem assustado ainda olhou para trás ao me passar a maleta, procurando pelo Del. Coloquei a pasta no colo e acelerei. Ouvi o primeiro tiro e o barulho de metal contra metal na placa da moto. Pelo retrovisor deu para ver que ele acelera e estava bem mais perto, apontando o revólver. Eu estava sobre a calçada e senti a moto dar uma rabeada e, sem controle, me estatelei no piso. O filho da puta tinha acertado no pneu. Não compreendi a atitude dele, não entendi a pontaria certeira, não percebi onde estava, tão longe que fui arremessado pela queda.
Abri os olhos e lá estava ele com a arma apontada para mim enquanto recolhia a maleta. Tirou o capacete e vi que não era o Del. Era o cúmulo! Fui para a delegacia, machucado, algemado, enfurecido. O desgraçado ficava com setenta por cento de tudo que eu conseguia, pois não admitia receber menos que uma bicha negra e ainda me aprontava aquela! Era demais. Mais tarde apareceu na cela e me levou para a sala de interrogatório cochichando que não tinha culpa: o homem passara na delegacia mais cedo e não quis lhe esperar. Levara em seu lugar o Otávio, o outro agente, o de pontaria certeira. Não o fiz, mas me deu uma vontade de dar uma surra no Del que ele jamais esqueceria.
Mais uma prisão e por ser um flagrante, não tinha bons prognósticos. Agora fora ferrado de verdade. O miserável do policial-bandido-setenta-por-cento, nada podia fazer para me livrar dessa enrascada. Fizera minha parte direitinho, eu o negro-bicha-trinta-por-cento e iria pagar cem por cento pela ineficiência do safado.
Como disse, eu nascera e crescera com tudo predeterminado a não dar certo, se ainda vivia, talvez fosse devido a muita sorte e a proteção de Oxumarê. Todavia, ele é o Senhor da dualidade, da interação de energias e é quem faz a vida girar incessantemente. Apeguei-me a ele, colocando o cristal de quartzo em minha testa, pedi proteção, que iluminasse o meu caminho, onde eu poderia encontrar meios para ter um pouco de paz, de sossego e harmonia. Rômulo ainda não sabia da minha prisão. Eu desejei que nunca ficasse sabendo, e isso, obviamente não aconteceu, pois o cara que tentara assaltar, o dono de motéis e comprador de fazendas, viu ali uma boa oportunidade de promoção gratuita. Virei notícia no Jornal Nacional e apareceria em vários outros, sem contar os da manhã seguinte, os impressos.
O pior de tudo é que eu fui entrevistado por um repórter do qual era tiete, lindíssimo; o cara era tudo de bom! Fiquei com vergonha dele, quase lhe pedi desculpas. Não poderiam ter enviado uma daquelas repórteres da velha guarda, cheia de maquiagem e plásticas? Tinha que ser logo o meu repórter preferido, meu gato da telinha?
Pra sacramentar tudo, ainda fiquei numa cela onde só tinha uns caras fodidos, criminosos da pior laia e tudo, grandalhões, sarados, tipo piolho de academia. Ficaram me azarando o tempo todo e, eu tremia nas bases... Verdade, uma porrada podia vir sem aviso e me desmantelava todo. Um bando de malucos musculosos em volto de um garnisé de penas pretas. Mas Deus olha por mim, minha vó Nanã. Logo que bati o ponto, na cela, eram dez presos. No final da tarde, quatorze; à noite, doze. Cela de delegacia é assim, alta taxa de rodízio. Alguns são soltos, outros são transferidos para presídios, e novos prisioneiros caem nas mãos da lei — chegam com cara de cachorro que caiu do caminhão de mudança.
Logo que anoiteceu meu namorado veio me visitar e chorou, o que não pegou nada bem, mas ninguém se atreveu a me dizer gracinhas; acho que ficaram sabendo quem eu era. Por outro lado, isso me deixou ainda mais apaixonado. Ele é um cara sensível e procurei tranquilizá-lo, dizendo que, breve, estaria de volta para tomarmos um banho na jacuzzi e namorar na nossa gostosa cama. À noite, novo interrogatório, desta vez, oficialmente. Os tiras me apertaram durante três horas, revezando entre si. Queriam saber de assaltos não praticados por mim e outros que praticara, mas dizia que não fora eu. Eles se deram por vencidos, sem admitir o fato, claro. Para compensar a frustração, me davam tapas e chutes durante todo o tempo. Até o Del fez o teatro dele, miserável. Quando sair vou dar uma surra no cretino que ele jamais vai esquecer.
Por volta das dez da noite, o Del chegou afobado até a cela e me arrastou para um canto dizendo: “nós ganhamos, Bartô! Nós ganhamos, tamo rico, cara! Rico!”, falava e ria, suava e faltava-lhe a voz.
— Vai com calma, fala devagar!... O quê que nós ganhamos?... Que história é essa de ficar rico, pirou geral?
— Fui conferir a minha Sena e fiz a quina! E você acertou todos os números, Bartô! Tamos rico!... Rico, entendeu?
— Não entendi... Se você fez a quina e eu acertei todos os números... Então eu é que fiquei rico! Não “nós”!

Nem preciso dizer que não dormi à noite. Eu ria sozinho no meu canto, dava uma baita vontade de gritar, mas tinha que me conter. Não podia dar bandeira ali, naquele covil esfomeado. Zezão da Gaviões ficou de butuca, um negro de dois metros, com umas duzentas condenações por tudo quanto é tipo de crime. O fato é que, agora eu estava rico e com um problema sério. O problema eu assimilara bem, faltava pensar numa solução, porém “estar rico” ou “ser rico”, milionário... Isso não dava para assimilar. A ficha demoraria a cair, se caísse!
O problema tinha um nome: Del, o detetive malandro e safado! Falei que ele estava enganado, pois não havia marcado o número 47 e sim, 57. “Nós dois fizemos a quina...” Ele não acreditou, claro. Dizia ter certeza que eu marcara o 47 e jogara três números acima do meu. Esperto, ele. Tão esperto que pediu para ver o bilhete, o meu bilhete! Achava o negão aqui passado, otário. Ele se engana comigo, vai ver só. Falei que o bilhete estava na minha casa e, quando ele conseguisse me soltar, veríamos juntos. Quando foi embora, procurei no bolso e lá estava, meio amassado. Vi, tremendo e suando frio, o maravilhoso número 47. Bingo!
Não dá para explicar a sensação de se saber milionário de um minuto a outro. É uma estranheza de quem vai desmaiar; o coração acelerado, as pernas bambas... Muito louco! Milionário e preso! Acho que era o preso mais feliz do mundo. Acho, não, tenho certeza! Tratei de me cuidar e esconder bem escondido o bilhete premiado. Ninguém o encontraria. Aguardei com toda paciência pelo dia seguinte e as próximas semanas. Aguardei com a paciência de meu pai Oxumarê, um habeas corpus que agora poderia pagar. E com essa intenção chamei o Del. Disse ao carcereiro que o chamasse, pois tinha uma confissão a fazer, e só faria a ele.
“Inegociável!”, respondi quando Del me disse conseguir o habeas corpus desde que eu lhe entregasse o bilhete premiado. “Garanto os seus trinta por cento”, disse-me o filho da puta, safado! Ele não veria esse cartão lotérico nem que eu morresse. E mais: disse a ele que agora seria meio a meio, mesmo ele não tendo direito a nenhum centavo. “Use o seu dinheiro, sem economia, com um bom advogado, não desses de ‘porta de cadeia’, mas um ‘notável’. Quando eu sair, nós vamos juntos na Caixa Econômica, abrimos duas contas e depositamos metade numa e metade noutra. Uma minha, uma sua”. Reclamou, esbravejou, dizendo que não tinha dinheiro para isso, que iria pensar. O sacana devia ter dinheiro saindo pelo ladrão (com as devidas desculpas pelo trocadilho). Não tinha alternativa, senão fazer como eu exigia. Agora eu dava as cartas. Iria beber na minha mão, se o deixasse beber, claro.
Mais tarde, quem voltou ao distrito e me procurou foi o Rômulo. Estava com um olho roxo e uma ferida nos lábios. Antes que lhe perguntasse o que havia acontecido, contou que um policial chamado Del revirara toda a casa, jogando tudo no chão: gavetas, conteúdos dos armários, latas de alimentos, tudo..., tudo mesmo. Até o pesado colchão king-size fora tirado do lugar, além das almofadas. Para Rômulo, ele estava possuído e, entre gritos, xingamentos e ofensas pessoais, ainda batera nele. Choroso, disse que não aguentava mais aquela vida, que desejava mudar, etc, etc. Com muita calma, que estava longe de sentir, fui tentando deixá-lo mais tranquilo O desgraçado do Del estava mesmo decidido a ficar com o bilhete premiado. Bom, ele agora teria que suportar as consequências de sua ganância.
O Zezão filmava tudo. Depois de acalmado, contei a Rômulo o que ele queria, dando-lhe tapas para abafar suas exclamações de espanto e alegria. Disse que lhe entregaria o bilhete no dia seguinte e também o que deveria fazer.
Depois que foi embora, pedi ao carcereiro para falar com o delegado, doutor Hermógenes Arruda, um senhor educado e enérgico. Aquele sim era um sujeito homem, que merecia o meu respeito. Fui levado à sua presença e disse-lhe haver algo muito sério que ele precisava saber, contudo era assunto a ser contado só para ele. Não concordou, temendo que eu lhe fizesse algo, aproveitando da minha compleição física, da minha força, mesmo algemado. Insisti que era sério o assunto, e ele, não vendo alternativa diante da curiosidade despertada, mandou o escrivão e carcereiro saírem. Colocou uma semiautomática na mão, sobre a mesa, como forma de me intimidar a não ter ideias erradas.
Ao ver que estávamos sós, puxei uma folha de papel, pedi-lhe uma caneta e escrevi, empurrando depois em sua direção. Pegou a folha e leu:
“UM MILHÃO DE REAL
XEQUE ADIMINISTRATIVU”
Demorou um pouco na leitura, levantou os olhos sobre os óculos e ficou observando-me. Por fim, perguntou:
— Em troca do quê?...
— Minha liberdade, o desaparecimento desse flagrante e do processo e uma ficha limpa... Recebe o cheque antes.
Continuou a me olhar sem nada dizer e percebi que analisava a situação. Diziam que era um sujeito incorruptível, professor universitário, além de delegado. Devia ralar muito.
— Eu não aceito suborno, Bartolomeu. Minha vida é limpa, minha ficha policial está cheia de honrarias... Acha que essa vida, que construí com muito suor, muita dignidade e estudos, vale somente um milhão de reais?
— Tem razão, doutor... Desculpe pela ofensa. Um milhão e quinhentos... — Falei em tom conspiratório, pois as paredes têm ouvido e as de delegacia, ouvidos treinados. Silêncio, novamente. Mas breve.
— Quatro milhões em cheque administrativo ou, do contrário, você pode voltar pra cela como se essa conversa não tivesse existido.
— Fechado! Mas tem uma condição: o Del está no meu pé, querendo o mesmo dinheiro... Tem como ele fazer um serviço longe daqui quando tiver no jeito pra eu dar o fora?
— Sem problemas. Deixa que eu cuido dele; mas eu também tenho uma condição: vai prometer voltar pra escola. Milionário tem que saber escrever bem e ler. Senão...
— Eu prometo.
— Dentro de dois dias quero o cheque em minhas mãos. Uma hora da tarde. À noite, você vai ser levado pra sua casa, livre, sem fichas e milionário.
— Como sabe dessa história de milionário, doutor?
— Sei por que sou delegado.
Para comemorar e selar o acordo pediu a um bate-pau que fosse comprar cachorro quente e suco para mim. Eu estava com fome, de verdade! Comi dois hot-dogs com bastante mostarda e catchupe, arrotei e fui levado de volta pra cela. O Zezão sentiu o cheiro do meu bafo, pois perguntou o que eu tinha comido. Não respondi e ele falou que sabia que era coisa boa e queria também. Não dei a mínima. Não mesmo. Mas antes tivesse dado. Veio pra cima de mim e me imprensou na parede exigindo que eu mandasse comprar algo para ele comer. “Quero um prato fino, bem gostoso, seu merda!”
Comecei a suar frio e uns engulhos vieram subindo, subindo... Era medo! Um baita medo, daqueles de dar dor de barriga, de urinar nas calças. Sem saber o que fazer, sem voz e sem atitude, fui salvo pelo carcereiro que viu o que tava acontecendo e tratou de por ordem no fuzuê. “No meu turno, não! Se quiser aprontar, arranja outra hora!”
Quando ele me largou, corri para o sanitário e despejei com vontade e sem controle. A cela inteira me olhou e vi a morte em cada olho...
“Negro nojento, vai cagar fedido assim na porra da sua mãe, seu viado!!”
A situação parecia que não ia melhorar tão cedo e acho que perdi uns cinco quilos nos vinte minutos que fiquei ali sentado no vaso. Vinte minutos de humilhação e de promessas de vingança. Eu entendia eles, o troço fedia que chegava a arder. Olhei para o  Zezão e sorri, como quem diz: “tou cagando pra você”. Eu tinha terminado e me lembrei do bilhete que embrulhara num pequeno plástico e enfiara no rabo... Merda! Não acredito! Voltei a suar frio e me amaldiçoei em pensamento com todas as maldições que sabia existir.
Não tinha outro jeito, tinha que enfiar a mão e garimpar o pequeno embrulho. Os outros presos já haviam perdido a paciência e logo haveria uma rebelião; gritavam para eu acabar logo com aquela catinga e o Mafu, um traficante metido a besta me jurou de morte. Ai, meu pai!
O Zezão da Gaviões veio pra cima de mim e me encolhi todo, na hora em que eu ia enfiar a mão na merda e resgatar meu bilhete. Preparei para receber o golpe mortal. Não senti a pancada do murro, foi uma pancada nos meus ouvidos, isso sim, o som da descarga. O desgraçado me empurrou e deu descarga no vaso e com uma das mãos e com a outra tapava o nariz. Fiquei louco, louco mesmo, cego de fúria, de frustração e de desespero. Pulei no pescoço do Zezão com os dois braços trançados rodeei sua cintura com as pernas. Lasquei uma dentada na sua orelha direita e puxei com toda a força que eu tinha. O negão urrava de dor e tentava se livrar de mim, grudado que nem carrapato nele. Cuspi o pedaço de orelha e fui com a boca em direção a outra enquanto ele rodopiava pela cela, comigo dependurado.
Do jeito que eu estava, só um pensamento habitava minha cachola: vou comer esse filho de uma égua todinho e ninguém vai me desgrudar desta besta dos infernos! ...

Osair Manassan

Um comentário:

Aninha The Best disse...

Como sempre, fantástico seus contos. Deu dor no queixo de rir imaginando a cena. Rsrsrsrs...
Um abraço!

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