21/05/2012

Do indesejado


Há uma nódoa de angústia nestes tempos;
Fantasmas arrastam correntes,
Sorrateiros,
Sobre o coração
Que, pálido, pulsa aos pulos;
Uma repulsa corrói o cerne do razoável.


Não há alegrias
Se tão poucos são os motivos
Do barco que navega por águas ensandecidas,


E se ao horizonte,
O olhar perdido não se acha,
A cabeça pesada cai
Sob o peso de uma aura acinzentada
Que a face inexpressiva,
Como nunca fora,
Não revela.


Há uma combustão sangrenta e silenciosa,
Destes tempos
Que só os sentidos vêm.


Em meio ao redemoinho
Brota uma sutil e obstinada confiança
De se encontrar,
Ainda que leve mil anos,
A alquimia destes tempos de agora.


E o apego do peito
Aos mantras da esperança,
Entoado com os tambores da alma
Findará esse levante,
Desfazendo toda nódoa
E, exorcizados,
Repatriem-se os assombros
A insignificância
Dos vencidos
Que a luz matinal descortina.


[Osair Manassan]

19/05/2012

PALAVRAS VADIAS


Subverto-me,

um tanto verdade,

outro tanto farsa;

tese e antítese

sem pretensões à síntese.

Escravo do silêncio

preso às palavras

que ao final libertam-me

num avesso de mim.


(Poema que deu origem ao nome do blog)
Osair Manassan

04/05/2012

Desejos


Não quero que me ache um “bom rapaz”. Tenho uma necessidade premente de cometer pecados, subverter: isto excita, produz adrenalina - dá uma gostosa sensação de estar vivendo plenamente. Eu quero mesmo é amá-la sem nenhum juízo.

[osair manassan]

Ah, os intelectuais!


Os nossos “preciosos” intelectuais torcem o nariz para o brega, o não-acadêmico. Mas, somente quando estão sóbrios. Tenho observado, na minha condição de boêmio abstêmio que, à medida que cresce o teor alcoólico no sangue, eles vão revelando o brega que existe em todos eles. No auge da madrugada e da cachaça, abraçam com a gente e cantam emocionados, de olhos fechados e braços abertos, músicas que vão de Wando a Bruno e Marroni. E ainda pedem a saideira.
É isso: em todo intelectual existe um brega enrustido.

[osair manassan]

23/04/2012


NA COMISSÃO DA VERDADE

... "Como sobreviveu a tudo isso?"
"Ainda estou sobrevivendo... Sobrevivendo à maior de todas as aflições, que é a dor moral. É a humilhação de ter o seu eu exposto à violência gratuita, sua intimidade devassada, seu corpo exposto e explorado em todas as suas reentrâncias com uma fúria bestial."
"Que animal faz esse tipo de coisa?"
"Nenhum, que não seja humano. Os animais se respeitam, não torturam, matam por necessidade vital, matam dignamente. Os animais não torturam nem se ejaculam diante do sofrimento do outro. O homem não merece ficar na categoria dos animais: é um desrespeito ao instinto primário..."
"E como foi?"
"As dores que sofri entre gritos desesperados, aquela sensação cruel da eletricidade sacudindo o corpo molhado e despido, e tantos outros requintados métodos de martírio físico já passaram e deles só restam algumas cicatrizes. Mas a dor moral, não. Essa se aloja na alma da gente, gruda no existir e nos assombra para o resto da vida. Vira pesadelo recorrente, num eterno retorno, num eterno ferir e machucar, que desespera e entristece os restos dos nossos dias".
"Os algozes sentem-se orgulhosos dos seus feitos covardes, não conhecem o constrangimento. Arrotam vitória, sem ter a noção de que não há vitória no subjugo pela força, na incapacidade do outro se defender com dignidade e igualdade de condição".
"E o que mais?"
"Sentiam-se reis, mas eram reis sem coroa, sem glórias reais. Perdidos, agora, sem reinado, vestindo as máscaras da desonra, vagueiam sem conhecer o amor, sem a alegria dos que combateram o bom combate. Sem a grandeza dos que ousaram sonhar e foram em busca do sonho, que se somaram entre outros de igual gentileza, num sonho coletivo".
"O que são, hoje, esses algozes dos solidários?"
"Não nego a minha repulsa: são seres desprezíveis, vermes que rastejam na lama ensanguentada de seus atos execráveis, abjetos. São velhos arrogantes que, ainda hoje, cospem na verdade da história..."

Osair Manassan

21/04/2012

Tecelãs


Na agulha que fere
A linha tecida 
Tece 
Tramas de amores inacessíveis
Rompendo caminhos
Que levam ao coração.


Somos o pano adornado
Perfurado
Para a metamorfose da cores
Em finos fios 
Do que fora macio algodão.


Reféns de belas tecelãs
A girar
Em gozos trançados
Num corpo em roto tecido
De linhas fiadas 
Corpo vassalo, confiado 
À roca incessante 
Da vida 
Que roda e destrança
O linho do amor 
Na linha do suportável. 




Osair de Sousa

29/03/2012

Anjo sensual

Noite. A mulher sai da casa e deita-se na cadeira que está à beira da piscina. Veste um short branco e curto que deixa à mostra pernas bronzeadas. Na parte de cima, uma camiseta, também branca, justa, modelando os seios de contornos juvenis.
Admira o céu iluminado pela lua cheia. Seu olhar se fixa naquele milagre prateado. Na face um semblante sereno, uma paz contagiante. Devagar abaixa o olhar, que percorrem toda a piscina, com suas águas em calmo movimento refletindo, em flashes de luzes, o firmamento que veste o seu pequeno e valioso mundo.
Levanta-se sem pressa e caminha até a borda; olha a água, cerra as pálpebras e se deixa cair. O silêncio da noite é quebrado pelo barulho do corpo de encontro à água. Nada de um lado a outro, com suavidade e determinação. Depois de alguns minutos pára ao lado da escada. Aguarda a respiração voltar ao normal e sai.
Volta vagarosamente para a cadeira onde estivera deitada. O líquido escorre por seu corpo, as gotas como pequenos cristais que brilham ao refletir a claridade da lua. A camiseta molhada gruda-se ao seu corpo como uma outra pele. Suspira com calma, num estado de beatitude.
A não ser pelo discreto barulho da água ainda em movimento, o silêncio voltou a tomar conta da sua noite. Foi um ritual solitário, sem testemunhas, de uma generosidade encenada para a própria alma. Assim são os anjos.

28/03/2012

Indecências

confesso sacanagens em seu ouvido nu me pede me come respondo ávido sou todo sensações; o nosso ócio se delicia além da noite breve; o cio que nos extasia faz gemer as estrelas e estremece a manhã que entra imaculada pela cortina rasgada e arrasta-se já profanada por entre os lençóis manchados de gozo amarrotados de suor e de cheiros sensuais; o nosso ócio é ofício do que somos nessa ira de amantes insaciáveis, plenos; deliciosa lascívia do seu sexo aberto invadido pelo meu de sua boca louca que chupa lambe e morde numa devassidão sem pecado original que ao final se revela em seu avesso; nos exploramos em todas reentrâncias dos corpos e encontro pelos de sua púbis em minha boca a te abocanhar entre pequenos lábios molhados, rosados; sem reservas me ofereço e te vejo abrindo-se mais e mais para que eu entre fundindo-nos num parto avesso até o limite das forças que nos trai já ao entardecer quando adormecemos como dois anjos nus caídos na tentação dos prazeres; ao lado da cama garrafas e taças vazias do vinho de vinhas das montanhas libertinas.

29/02/2012

AUTO DOS DESENCANTOS


Osair Manassan

Passou a noite observando o movimento no pátio. Contou cinco caminhões estacionados; passariam a noite ali. Vários carros menores e motocicletas chegavam e partiam, ficando o tempo suficiente para abastecerem. O rapaz que tomava conta das bombas de combustíveis tinha a cara sonolenta e um andar preguiçoso. Concentrou-se nas duas mulheres que chegaram, pintadas e alegres. Sumiram dentro da lanchonete do posto. Pouco depois a primeira veio agarrada ao braço de um caminhoneiro; abriu a porta do veículo, ajudou-a a subir na cabine e entrou atrás. Só saiu de lá nos primeiros raios de sol. A outra, mais nova, ficou rondando um bom tempo até que o homem de um outro caminhão, com voz carregada no sotaque gaúcho, pos a cabeça pela janela da porta e puxou conversa com ela. Minutos depois também subiu e se embrenhou lá dentro. Cortinas de pano os isolaram ali dentro e o silêncio voltou a tomar conta do lugar.
Sentada, com uma pequena trouxa no colo, pensou nas mulheres e nos homens, o que estariam fazendo. Melhor esquecer, descansar-se de tanta coisa que diuturnamente lhe vinha à mente. Debruçou-se sobre os braços, apoiados nos joelhos, na espera de adormecer; assim não refletiria sobre a vida. Recordar doia demasiado. Embora não quisesse ter em sua nova realidade tão massacrantes recordações, elas invadiam-lhe o espírito, alheias à sua própria vontade, causando desassossego. Eram inclementes. Tudo o que vivera desde os nove anos era-lhe pecado, por isso se sentia mal consigo mesma. Às vezes chorava. Um choro escondido e incontido. As lágrimas tinham como força motora esse breve passado e se expeliam olhos afora, numa pressa de deixar os pequenos olhos cansados. As lembranças indesejadas mostravam-se infinitas nas mágoas que traziam em si e arranhavam as feridas não cicatrizadas da alma.
No final do mês faria aniversário. Feliz aniversário? O que é felicidade, essa palavra tão bonita? Quinze anos. E já estava esgotada, sem alento, sem viço. Vivera cem anos, não quinze. A aparência é enganosa como o são as pessoas. Cem anos de vida em quinze. Era o seu sentimento, a sua miséria interior somada à miséria do mundo que até agora tivera a oportunidade de conhecer. Alguma vez emitira um sorriso espontâneo? Em algum momento da sua pouca longa vida, recebera um afago afetuoso? Afeto, estranha palavra que lhe parecia vazia de compaixão.
Mudaria alguma coisa agora que estava prestes a se mudar de lugar? Os homens do sertão de Pernambuco não seriam diferentes dos homens de São Paulo. Já percebera isso nos olhares, nas insinuações e até nos gestos que lhe faziam tentando aparentar inocência. Notara a sandice imoral a vasculhar seu corpo adolescente e desnutrido. Os olhares invasivos lhe davam um asco indisfarçável. Tantas vezes já vira aquele olhar em tantos olhos que sabia tudo o que eles lhes diziam. Tinha conhecimento do que desejavam, a babar como animais famintos - cães sem dono a enxergar comida.
Acordou de um sono superficial. O dia já se insinuava nos primeiros claros róseos do horizonte. Uma a uma, as duas mulheres saíram trôpegas do interior das cabines e foram embora. Seguiu-se um ritual dos homens que dirigiam aqueles caminhões: rumo ao banheiro, vestidos com bermudas e camisetas amarrotadas; de volta à cabine; descem com roupas de melhor aparência, vão à cantina e tomam café reforçado. Um após o outro voltavam. Rádios ligados, músicas, notícias, outro frentista. Outro dia.
O corpo lhe doi pelas horas em má posição. Estica-se e vagarosamente segue rumo ao estacionamento. Olha para os caminhões e aproxima-se do que estava mais próximo de onde estivera. Lê a placa. Repete o procedimento nos outros quatro. O som de um motor faz com que se volte com o olhar. Era o caminhão do sujeito com sotaque gaúcho. Observa cada um dos veículos distraidamente e se assusta com a voz que se dirige a ela.
“Tá querendo dar o fora, menina?”
Olha o homem. É feio, de fala baixa e olhar avaliador.
“Vou pro sul... São Paulo.”
Agora, sem a mãe por perto, ela se sentia livre, desobrigada. Estava decidida a ir para longe dali. Ninguém iria forçá-la a fazer aquilo... Preferia morrer. E morrer seria não recordar, não fazer nada, não ver nada. Somente um sono profundo do qual não se acorda mais. “Morrer não deveria ser tão ruim como essa vida desgraçada, suja e cheia de maldades...” Sabia que era pecado pensar estas coisas, mas de pecados já estava cheia, entulhada deles. Nada mais receava além da possibilidade de ser levada, mais uma vez, a ser objeto da imundície humana. Isso nunca mais. Achara bom quando a mãe fora atropelada na rodovia, embora a ideia de liberdade total, de fazer o que bem entendesse consigo mesma a deixasse confusa, sem direção. 
Parada em frente ao caminhoneiro, viu que realmente devia partir. Entrou no caminhão e logo estavam na rodovia. Não olhou para trás, não deixara nada que lhe fosse de algum proveito. Distraía-se com o movimento na estrada. Tanta gente, tantos carros! Gentes de todo tipo, sem-nomes, sem-rostos, a cruzarem com o veículo que a levava para longe de toda ruindade. O motorista perguntou seu nome. Perguntou depois a idade - um monte de outras perguntas. Ele falava o tempo todo, era curioso, ela observou. Tentou tirar um cochilo. Aos poucos todo aquele barulhento tráfego silenciou-se.
Estava escuro, um par de faróis chamou sua atenção e o coração apertou-lhe dentro do peito. Era o carro esperado trazendo poeira e um velho bigodudo de sorriso amarelado ao volante. Eram todos velhos e talvez velhice fosse doença que se pega feito resfriado. Por isso se sentia com cem anos. Velhos decrépitos, porcos ao volante de suas velhas pocilgas... E a mãe. Sabia o que ela lhe diria a seguir, todavia esperava como sempre acontece quando se tem esperanças que daquela vez ela não lhe desse a ordem de ir. A esperança morreu e não se lembra bem em que ocasião. Esperança era um consolo que durava tão pouco, diante do martírio diário, que a sepultou ainda em vida.
"Teresinha, tu tá esperando o quê, diacho! Vá logo, vá, que o moço num tem a noite toda, não!..." Então ia, num andar lento, os passos forçados pela necessidade. Avançava em direção ao veículo estacionado atrás do posto de combustíveis. A mãe, de longe, observando, nervosa. Havia bocas ávidas por alimentos, estômagos vazios a rechear com um pouquinho de nada. E havia velhos encardidos querendo meninas que lhes custassem pouco, na satisfação de suas ânsias dementes.
Sentava-se no banco do carona e o velho sorria exalando cheiro de cachaça e cigarro barato. Pegava em sua coxa de criança enquanto punha pra fora “aquele troço mole e nojento”. Subia a mão áspera e tocava o seu sexo, e ele, ávido, retirando a calcinha de forma desajeitada, com uma só mão. A outra segurava e sacudia “a coisa abananada” que ia endurecendo. Ela sentia nojo, mas ficava quieta, enrijecida de corpo e alma, enquanto ele se mexia, ruminava sons ininteligíveis e espasmódicos.
Ele lhe dizia coisas sujas, nomes feios e ainda a chamava de "meu benzinho", "queridinha do papai", "minha filhinha"... Dizia e fungava, as mãos grandes machucavam, apertando seu corpo franzino, procurando carnes onde não havia. A tortura daqueles momentos parecia durar horas e ainda tinha aqueles que lhe ordenavam que pegasse “naquilo”. Dizer não, dizia, contudo recebia ameaças e tapas. E os viam morrer, sem que morressem, era somente o anúncio de um final provisório que só acabava quando “aquela coisa esquisita” que ele chamava de "cacete", expelia uma gosma branca... Quanto nojo, meu Deus! Nunca acostumou nem se acostumaria.
“Acorda, menina! Vamo passá a noite aqui...”
Ele era uma pessoa de bem. Pagou o jantar dos dois e bebeu muita cerveja e conversou o tempo todo. Ela bebeu água e não pediu nada. Ele comprou-lhe chocolates. Voltaram ao caminhão e foram dormir. Ficou acordada sem sono e o ronco do motorista era estranho e alto.
As dolorosas lembranças vieram de supetão. Entregava o dinheiro para a mãe e voltavam em direção ao casebre de pau a pique em que moravam, sob o som dos próprios passos arrastados. Lá se fora mais um dos incontáveis carrascos indecentes. Lá se fora mais uma noite de tortura e desencanto. Ninguém dizia nada. Nem ela nem a mãe. Caladas, com o receio de revelar a dor que cada uma trazia na alma ao pronunciar um som que fosse. A brisa noturna era irrespirável, sufocante. Nada diziam. Ela, nada ouvia ensimesmada com a própria dor e um estranho nojo de si mesma.
Ao entrar, encontrava Francisco dormindo e deitava-se ao seu lado. A mãe acendia um cigarro e ia fumar no quintal. Ali ficava por horas olhando para o alto, para o céu de onde nada caía. Alisava a cabeça do irmão sentindo a maciez do seu cabelo encaracolado e experimentava um prenúncio de prazer em sua tristeza. Era por ele, só por ele que obedecia à mãe. Por ele. Era tão bom poder ficar ao lado daquela criança frágil, a sua única alegria nessa vida de meu Deus. Com Francisco podia conversar à vontade, contar todos os seus medos e tristezas. Ele não entendia, mas era bom assim mesmo e pelo jeito que a olhava, talvez até entendesse. Não seria certo revelar-lhe tudo, atormentar a sua inocência e manchar a sua beleza.
No ano seguinte, aquela alegria lhe foi roubada de modo sádico. Não sabe que doença maldita levou seu pequeno irmão. O padre falou que fora a desnutrição... Não perguntou o que significava, "que diacho de palavra era aquela...". Ele, tão alegre quanto frágil, um menino mirrado que mal conseguia correr, com cinco anos e uma aparência de três. “Onde Deus mora? Muito longe daqui?”. Chorou profundamente. Chorou pelo irmão, por si, pela sina de um viver cheio de tristezas e, agora, sem nenhuma alegria.
Acordou assustada com o caminhoneiro tentando arrancar-lhe as roupas. Gritou “não! Para com isso! Para!...”
“Tu tem que pagar a viagem, sua putinha... Achou que ia de graça, comendo e bebendo às minhas custas? Vagabunda! Vem cá... Seja boazinha... Isso!”
Deixou o norte para plantar sonhos no sul. Experimentou um breve renascer da esperança. Esperança pouca, de um olhar honesto, de uma palavra de carinho. Não obstante, na idade em que fora alçada, compreendeu por fim, não se alimenta o futuro por não existir senão o agora. E o agora, dentro de um caminhão e debaixo de um céu escuro, sem estrelas, já não pensava em nada. Olhava para o homem sangrado, sem piedade. Com satisfação mórbida, deitou-se para adormecer e não existir.

16/02/2012

Momento imperfeito

Há uma nódoa de angústia nestes tempos;
Fantasmas arrastam correntes,
Sorrateiros,
Sobre o coração
Que, pálido, pulsa aos pulos;
Uma repulsa corrói o cerne do razoável.

Não há alegrias
Se tão poucos são os motivos
Do barco que navega por águas ensandecidas,

Nem no horizonte,
O olhar perdido não se acha,
A cabeça pesada cai
Sob o peso de uma aura acinzentada
Que a face inexpressiva,
Como nunca fora,
Não revela.

Há uma combustão sangrenta e silenciosa,
Destes tempos
Que só os sentidos vêm.

Em meio ao redemoinho
Brota uma sutil e obstinada confiança
De se encontrar,
Ainda que leve mil anos,
A alquimia destes tempos de agora.

E o apego do peito
Aos mantras da esperança,
Entoado com os tambores da alma
Findará esse levante,
Desfazendo toda nódoa
E, exorcizados,
Repatriem-se os assombros
A insignificância
Dos vencidos
Que a luz matinal descortina.

[Osair de Sousa Manassan]