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23 de jan de 2008

Dos amores impossíveis

Na fantasia dele, os dois se amam despudorados e tudo é factível, tudo acontece; é o que mais deseja na vida, mas é fantasia, por isso mesmo, unilateral. O desejo que se esvai como sangria, brota do âmago do seu amar solitário, corre pela imaginação e se realiza sem a plenitude do abraço, do beijo ou, menos ainda, de dois corpos saciados, lado a lado.
“Sabe lá o que é o amor profundo que se obriga ao silêncio?” A sua dor e o seu amar se calam e se vestem com roupas irreconhecíveis, que não lhes são próprias, que apertam, sufocam, deixando-o pouco à vontade no seu eu verdadeiro, fazendo doer mais e mais a dor do sentimento auto-refreado.

Na capa em que se esconde seu secreto desejo há frestas e transparências que não escapam ao olhar atento dela, que se incomoda por não ser algo desejado. Para ele, é a fraqueza das horas do sustentável amar que se extravasa feito represa que desaba sob o peso da fatal última gota. Mas não demora a se recompor na força da necessidade de respeitá-la em seu não desejo, de fazer valer o que é realmente Amar. A alegria se entristece ante a inevitável constatação de que, ao sonho somente, esse tanto querer é admissível, é aonde encontra a sua correspondência e se satisfaz.
Por tudo isso, acaba por fim, o amante solitário contentando-se com o pouco que lhe é dado, construindo a partir desse bocado, o seu castelo quixotesco, aonde se aloja e do qual alimenta suas salvadoras fantasias. É um reino frágil, mas é o seu reino possível e é ali que tudo acontece; ali os dois se entregam em plenitude, em sintonia, num gozo infindável de sensações. Nesse reino tudo é aceitável entre dois corações que se fazem de um. É lá, quando a saudade aperta, que ele se refugia; lá é o abrigo dos amantes lindamente despudorados e de bem com a vida, complementando-se, com o único objetivo de viver para serem felizes.
Mas o que ele faz da inexorável realidade? Como um animal solitário, mas forte e decidido, vai vivendo um dia por vez, lutando pela felicidade, que para si é a única razão do existir.


Osair de Sousa

3 comentários:

Craudinha Egg disse...

isso mexeu comigo....
tu és bruxo osa?

Anônimo disse...

um texto impressionante. fiquei aqui, lendo e secando as lágrimas que deslizavam quentes pela face.

Anônimo disse...

Somos um grupo de voluntários e começar uma nova iniciativa em uma comunidade. Seu blog nos forneceu informações valiosas para trabalhar. Você tem feito um trabalho maravilhoso!

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