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29 de abr de 2006

Uma cena de bar

Entre homens e mulheres, eram doze pessoas à mesa, barulhentos, numa quase algazarra. Ruídos de corpos se ajeitando nas cadeiras, de copos e garrafas que se tocavam, conversas paralelas alegres, algumas risadas e batidas de mãos na mesa de metal recoberta por um fino tecido de estampa quadriculada em tons de azul. Amigos que se confraternizavam, embora ele não soubesse o motivo, numa cena comum que passava quase despercebida como qualquer ato que se repete, continuamente, ao longo do tempo, num determinado ambiente.
O bar estava quase cheio. Sozinho em sua mesa, nos fundos do estabelecimento, passeava o olhar por rostos e gestos sem se ater a algo específico. Olhava por olhar, na verdade, olhava sem ver. Não havia nenhum atrativo na obviedade que ali se desenrolava. Mesmo o barulho, que lhe parecera exagerado a princípio, foi se dissolvendo num murmúrio na medida em que se voltava para o tumulto que lhe perturbava a alma. Ali não havia pessoas, nem risadas histéricas; havia, sim, um silêncio incômodo temperado por uma dolorosa e imperceptível causa.
Navegando no alto mar de sua introspecção, já quase um náufrago, não percebeu ela passar ao seu lado com um olhar analítico, se dirigindo ao banheiro. O torpor foi quebrado pelo gesto rápido e incômodo do garçom que trocava a garrafa vazia por outra cheia e lhe servia a cerveja espumante e gelada no mesmo copo em que estivera bebendo. Num movimento quase sincrônico, como se houvessem ensaiado, o funcionário sai para atender outras mesas no mesmo instante em que ela, voltando do banheiro, pára um instante à sua frente. Olham-se nos olhos. Ela sente pena de sua solidão, contudo percebe nele um encanto advindo justamente desse estado solitário. Ele vê em seus olhos uma bondade aborrecida e invasiva, muito embora chegasse a desejar que a mulher se juntasse a ele.
Ela volta para a mesa ruidosa dos amigos e ele, enquanto bebe sua cerveja, volta-se para a sua desordem interna. Entre os dois acontecera um pacto instintivo de que aquele momento não era o ideal para se conhecerem. Ainda que não houvesse, para eles, uma segunda oportunidade, algo corriqueiro na pulsante vida urbana.

[osair de sousa]

2 comentários:

Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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