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15 de ago de 2006

Cartas

Para João, era o mesmo prazer de se sentar confortavelmente para ler um bom livro. Quando, na caixa de correio encontrava uma carta de Liana, abria com cuidado para não rasgar o conteúdo, embora não pudesse conter a ânsia de poder devorar com os sentidos cada palavra ali escrita. Sentava-se na sua poltrona, desdobrava as folhas, reconhecia a letra e, com a alma em êxtase, lia e relia até satisfazer-se numa compreensão que ia das linhas às entrelinhas.
Se passasse um período além do que sua saudade podia suportar, relia várias delas.
Depois de tantos anos, em João, a lembrança daquelas cartas persiste, provocando uma aguda nostalgia, embora ocasionalmente, ela lhe envie e-mails. Mas nunca será como aquelas cartas. João sabe que ao e-mail falta o tempero dos momentos em que, parando com tudo, se dedicavam exclusivamente a escrever (e ler), o que lhes ditava o sentimento, o amor, ou mesmo a dor. O desenho de letra a letra, palavra por palavra, tinha uma identidade profunda do que lhes habitava a alma, no ritual solitário e prazeroso em que se ofertavam em instantes únicos e exclusivos.
Numa carta recebida de Liana, um dia, veio a mancha de uma lágrima que caíra descuidada. Ela invadiu uma frase e borrou a palavra “beijo”. Em João ficou a surpresa de que, lábios mágicos, tocaram num gesto suave as pálpebras cansadas de Liana. Um milagre que jamais poderá sentir em um e-mail, pensa, enquanto guarda com carinho a última carta recebida anos atrás.

[osair de sousa]

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