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14 de ago de 2006

Devaneios por causa da mulher

Crônica

Telefona lá pelo meio da tarde e pergunta: “melhorou da gripe?”. Gripe? Nem estava me lembrando que soltara alguns espirros logo pela manhã. “Melhorei, não se preocupe”. Acordara com um hálito quente e saboroso sobre o meu rosto, seguido de uma pressão de lábios em minha boca – um costumeiro bicota matinal; mania da Ângela.
Pediu-me para não esquecer de verificar a água do radiador do seu carro, pois percebera o ponteiro da temperatura muito alto. Olhei. Estava normal. O carro tinha o cheiro de seu perfume e, lá estava ele, o duende que lhe dera de presente há cinco anos, pendurado no espelho retrovisor. Durante esse tempo trocara de veículo três vezes e, em todos eles, o enfeite continuava a ser o mesmo duende verde. Despedi-me e fui trabalhar. Pensei em mandar-lhe umas flores. Claro que esqueci, absorvido nos inúmeros trabalhos da empresa.
Ângela é professora de balé. Vê-la dar aulas ou dançar me emociona. Tudo é feito com muito carinho e dedicação. Há uma leveza estranha em tudo que faz. Foi assim quando amamentava Nara. Os seios inchados de leite repousavam naquela pequena boca com suavidade. Por outro lado, percebe-se a força de seus braços e pernas sustentando a leveza da sua dança, a força de seu leite maternal que fez de nossa filha uma criança saudável, plena de vida. Amo a sua força que move, como se fosse uma brisa, o mundo à sua volta.
Outro dia fui buscá-la na escola e a encontrei com um ar aborrecido. Perguntei se tinha acontecido alguma coisa, respondeu que não. “Claro que sim”, pensei. Ficou calada até chegarmos em casa. Esperei. Não demorou muito para me contar a causa do seu estado de espírito macambúzio. O pai de uma aluna, apesar de notar a aliança em seu dedo, a convidara para tomar “uns drinques, qualquer dias desses”. “Os homens acham que todas as mulheres estão disponíveis para as suas canalhices”. Pelo tom de sua voz, vi que estava mesmo brava com o cara. “O que você fez?”. “Disse para convidar você, afinal, vocês homens têm mais afinidades...”. Fiquei calado, não sem protestar em pensamento: “como afinidade se nem conheço o filho-da-mãe?”. Engraçado ela me contar esse fato: já fui cantado algumas vezes por colegas de trabalho, mas nunca me passou pela cabeça em contar-lhe. Dei-lhe um beijo demorado e terno para demonstrar o meu amor, minha cumplicidade e apoio.
“Nunca conseguirei compreender as mulheres”. Disse-me Osvaldo, dono da padaria. “Gastou vinte paus no salão de beleza e não vi nenhuma diferença na Noêmia e, ainda por cima, ficou com raiva de mim porque eu não disse que tinha ficado mais bonita. Como mais bonita se não mudou nada e ainda me levou vinte paus?”. Quando Ângela chegou em casa, nesse dia, olhei-a demoradamente e disse, para desencargo de consciência: “esse novo corte ficou lindo em você”. “Obrigado, querido, mas já faz quinze dias que o cortei”. Deveria ter ficado de boca fechada...
Concordo em parte com o seo Osvaldo: jamais compreenderemos as mulheres. E isso é muito bom. O mistério da doçura e da bravura no enfrentamento da vida, a incompreensão da leveza e da força que irradiam aos que amam é que as fazem assim, mulheres. Ângela me vê no todo, em tudo, dando-se por inteira. Eu a vejo, mas nem sempre a percebo com Ângela. Sabe que eu quase nada sei, se comparado a si e diz que aprende muito comigo. Sinto-me pequeno diante dela, mas suas atitudes em relação a mim me fazem sentir um gigante. O que me pede? De vez em quando, um abraço, um beijo.
Se algum dia sair dizendo adeus, não vou perguntar por quê. Certamente estará coberta de razões que jamais poderei compreender. Isso não quer dizer que Ângela ou qualquer outra mulher seja especial; quer dizer que são isso mesmo: mulheres. Dizê-las especiais seria redundância.
Ângela sabia que meus espirros não significavam uma gripe. Certamente ligou esperando ouvir de mim alguma coisa. Passei o resto da tarde pensando o que poderia ser. Alguma data especial? Olhei o calendário em cima da mesa. Oito de março... Oito... “Idiota”, me xinguei. Dia delas!
Cheguei em casa à noitinha e a encontrei no quarto, lindamente vestida e maquiada. Pedi que me esperasse tomar um banho para sairmos e comemorar aquela data tão especial. Já prontos, levei-a pelo braço até a sala onde, para a sua total surpresa, havia uma mesa decorada com flores do campo, pratos e talheres, duas velas, um balde de gelo com champanhe e duas taças. Foi indescritível a sua emoção. Enxugou uma lágrima que brotara em seu olho direito e me pediu para abraçá-la – “Me abraça... Devagar, senão vai amarrotar o meu vestido novo...”.
Ah, mulher! Só me resta parodiar Fernando Pessoa: “A mulher é uma fingidora / Finge tão completamente / Que finge que é amor / O Amor que deveras sente”.

[osair de sousa]

5 comentários:

Jodenon disse...

Este sem dúvida na minha modesta opinião é um dos melhores que você já escreveu.

Fátima Paragussú disse...

Não vou comentar a crônica especificamente, mas comento sobre voce, que é um escritor versátil, intrigante...

°.. Drica ..° disse...

Muito linda essas palavras doces uilizadas para descrever as mulheres. Não só pelo fato de massagear nosso ego, mas por demonstrar que existem homens que sentem este carinho por nós.
Muito lindo.
Beijos
Drica

Anônimo disse...

Adorei entrar aqui!!! Não sei como seu e-mail foi parar no meu mailling, mas bendita hora que me proporcionou o encanto de conhecer suas palavras. Tenho um palpite, talvez pelo e-mail do Almofariz?? E a propósito, tenho lotado sua caixa com os meus releases, avise-me se estiver incomodando! Volto outras vezes... como mulher que se sente homenageada por suas palavras e como boa leitora que me considero.
Marley

Renatinha.. disse...

muito obrigada pela visita e pelo coments..
gosto das tuas escritas..

eu vou ti adicionar tá..

beijo e uma semana maravilhosa

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